O castelo de mil janelas


Cris Netto

Em um tempo distante, não o bastante que me escapem as memórias, mas longe o suficiente que me faltem os detalhes, uma princesa habitava um castelo de mil janelas. Rezava a lenda que ela enclausurou-se em seu quarto à espera do seu príncipe. Um príncipe que habitava seu imaginário e seu coração. Ele conseguiria alcançar a janela mais alta da torre e, por seu esforço, seria recompensado com o beijo doce do amor sincero.
O castelo era enorme, escuro, com muros escorregadios e cercado por um lago pedregoso e vegetação nem viva, nem morta, apenas espinhenta.
Nos reinos próximos chegou a notícia que uma princesa virgem e virtuosa esperava o príncipe perfeito para entregar-se a ele. Vários nobres cavalheiros percorreram o caminho até o castelo de mil janelas mas poucos lograram chegar até a última janela, onde a princesa os aguardava.
A jovem donzela foi perdendo o seu viço, a cada tentativa frustrada dos cavalheiros, branqueavam os cabelos. Rugas foram surgindo ao redor dos olhos, seguidas do ressecamento da pele. Após os dentes caírem e a audição a abandonar, foi a vez do brilho dos olhos se apagar e, por fim, o coração cansou de esperar.
Quão estranha são nossas vidas? Quão contraditória é a história, que levanta muros e preenche lagos? Por que escalar, se havia uma ponte para a entrada principal? Que triste destino da donzela, que preferiu esperar até o fim, ao invés de fechar a janela e abrir a porta? A poucos passos da clausura, um mundo também a esperava.

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Cris Netto

E-mail: cristiane.snetto@gmail.com

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