Averiz


Zilá P. Mesquita

AVERIZ

Zilá P. Mesquita

Averiz – a palavra lhe surge naquele estado obscuro de cochilo. Logo desperta e escreve-a sob o impulso da estranheza. Cavou com os olhos os restos de poemas que a seus pés jaziam, abandonados, como mortos, pelo tempo que ali tinham permanecido. Depois apanhou-os com curiosidade, como se escritos por ele não tivessem sido. Eram estranhos. A si e ao mundo. Ninguém os conhecera. Ninguém os penetrara. Nesse instante nem ele mesmo. Essa estranheza tosca se misturou aos fragmentos amarelecidos das folhas com as bordas rotas em suas mãos.
De repente outra vez: averiz. O que quer dizer averiz? Nem se lembrava mais daquela palavra surgida assim, sem aviso nem associação de idéias, do improviso de sua mente ingressando na vigília do dia. Tentou imaginá-la ao contrário para ver se fazia sentido: zireva. Não, não fazia. Decepcionado, quis abandonar aquele curso de pensamento, como se esta deliberação o levasse a outro. Não levou. Ficou sem saber o que fazer, ou melhor, o que pensar. Entregue àquela espera, ocorreu-lhe a impotência de sua expectativa e a humilhação desta inutilidade.
Nada podia fazer. Averiz. Despojada de sentido, aquela palavra inútil humilhava-o, paralisava-o, domava-o, submetia-o à sua potente insignificância. Averiz.Averiz. Averiz repetia-se, insistente. Afinal quem era ela para prendê-lo nestes instantes mortos de conteúdo?
Na tentativa de afastá-la, sem saber mais o que fazer, seus olhos galgaram a parede até o quadro. “O beijo”, chamava-se. Espantou-se. Onde estava agora todo aquele dourado com o qual Klimt adereçara o colorido das roupas dos dois amantes? O tempo, ou a luz do sol, entrando insistente cada manhã, talvez tivesse recobrado da reprodução do quadro aquele fascinante dourado que era dele, sol, e não de Klimt ou dos amantes. Deles era o beijo que sempre o deslumbrara, desde a primeira vez que o vira naquela vitrine de esquina no Quartier Latin. Uma reprodução perfeita do original. Quatrocentos francos! Lembrava agora. Na época achara caro para os seus rendimentos de estudante. Quanto custaria agora: quantos euros? Pouco importava; não estava em Paris e provavelmente nem o quadro na mesma vitrine... Averiz! Não estava mais em Paris...
Surpreso com o inesperado da rima que grudara um significado à estranha palavra, até esqueceu a decepção dos dourados perdidos, recuperados pelo sol que viera retomar do quadro o que era seu. Klimt e ele, o dono da reprodução comprada aqui mesmo, que se contentassem com o colorido das roupas dos amantes e um dourado esmaecido. Averiz! Dissera triunfante o sol ao recapturar o que o pintor lhe havia roubado.
Siena tem o melhor sorvete do mundo! Surpreso, verificou que este pensamento, doidivanas, saído do seu baú de memórias, havia afastado averiz. A lembrança do sabor do sorvete se mesclava à imagem daquele verão, há tantos anos... e do pequeno bar em que ele, pela primeira vez conhecera e tomara café gelado na taça alta e fina com a recomendação de que deveria usar açúcar líquido. “Para não amargar”, viera o aviso de Sofia. “Prego”, respondera, encantado com a suave beleza de Sofia e ainda se acostumando com aquela palavra de significado tão diferente em sua língua.
Prego, obrigado, Sofia. Por traz do gole que escondeu um sorriso dela, não pôde deixar de pensar: prego - um objeto pontudo, obtuso, que ao penetrar com sua dureza e indisfarçável crueldade, paradoxalmente “unia” dois fragmentos de madeira, antes separados. Como agora a palavra estabelecia uma ponte entre os dois. Prego em italiano: obrigado; porém palavra dura como um prego, em português. Ele a associava a uma polidez obrigatória, como se agradecer não fosse um sentimento espontâneo, do coração, mas um ato obrigatório e seco. Estar obrigado a reconhecer a gentileza de alguém. Talvez por isso com freqüência fosse pronunciada meio maquinalmente. Isso era tudo que ele não queria que acontecesse agora, entre ele e Sofia, pensara lá, naquele distante momento, o café gelado encharcando de um gozo curioso as papilas e a garganta.Torrefacione Italiana, ah! Que delícia! Lembrou-se que era a frase de uma antiga propaganda de café que vira uma vez...
Estranha beleza a de Sofia, ele rememorou: feições serenas, idade indefinível, cabelos e olhos escuros revelando uma origem mediterrânea, mescla de tantos povos. Mescla, mestiçagem. É, Michel Serres tem razão - flagrou-se pensando - somos todos mestiços. A foto do filósofo veio-lhe à mente, e a entrevista dele sobre o assunto também, mas cortou o pensamento na hora. “Mania de intelectual, essa, de interpretar tudo!”, como lhe observaram certa vez.
Esta lembrança esfumou-se, porém não quis ou não se permitiu lembrar o que aconteceu depois entre ele e Sofia. Não, não procederia como o sol, que retirara do quadro o que era seu. Afinal, de que adianta agora? Poderia trazer Sofia de volta? Onde, em que lugar perdido e distante dele ela se encontraria agora? E além do mais, se as lembranças eram suas, faria delas o que mais lhe aprouvesse, mesmo que isso fosse enterrar outra vez a imagem de Siena, do sorvete, do café gelado e de Sofia no seu baú de recordações. Espremidinhas, compactadas, como um arquivo grande que se envia pela Internet. Até quando? “Não sei... – respondeu-se - até precisar de um ‘upgrade de memória’ ou então, jogar na lixeira da vida”. Sorriu para si mesmo ao se surpreender utilizando aquela linguagem de computador.
De repente uma vontade de comer torradinhas com manteiga. Este pensamento intrometido na certa vinha do seu estômago. Consultou o relógio: nove e dez da manhã. Um bocejo de domingo saudou a interrupção. Levantou-se, pensando onde achar o pão para o capricho das torradinhas com manteiga da sua infância. Bendito estômago que dá um chute na mente e chama para o físico. Lembrou-se que nem tinha pão em casa. Averiz! E agora? Desta vez nem se importou com a nova intromissão de averiz. Dirigiu-se à cozinha, escarafunchou as prateleiras. Nem uma bolacha sequer.
Sem mais nem menos uma chance se insinua do fundo da memória. O armário da despensa, averiz! Como é que não tinha pensado nisso antes? Lembrou-se de que guardara lá um pacotinho de bananinhas fatiadas, salgadas e desidratadas. Alcançou-as e seus dedos, conduzidos pelo estômago talvez, abriram rapidamente a embalagem.
“Um chá de mate acompanharia bem”, ofereceu-se a chaleira lustrosa sobre o fogão. “Averiz, aceito a sugestão”, respondeu-lhe, enquanto suas mãos providenciavam. Dali a cinco minutos já estava diante de uma xícara fumegante, a estévia ao lado, pronta para adoçar a bebida que ele sorveu com gosto.
Depois, ligou o computador. Precisava trabalhar, embora fosse domingo. De repente, inesperado, assim sem mais nem menos, veio-lhe aquele desejo enorme de rever Sofia, o jeito calmo com que suas mãos se encontraram, ao depositar o cálice de café gelado, o olhar profundo, seus silêncios quase eternos.
Não resistiu à tentação; não resistiu àquela idéia. Era Sofia que, fascinante, surgia na tela de sua mente. Seus dedos, submissos, teclaram o endereço no google e, surpreso, viu que havia encomendado a pesquisa. De que? De quem? Seus olhos, incrédulos, leram: Sofia... Ou seria Sophia com ph, antigo como aquele encontro? Hesitava. Sophia de que? Sophia Arentenguy, veio-lhe o nome todo e ela lhe sorriu, meiga e cúmplice com a madeixa de cabelos escuros sobre a testa.
Teclou, resoluto. Com olhos que mal podiam esperar, ávidos, viu afinal a ampulheta ceder e em seu lugar aparecer a foto da designer, linda no seu vestido marroquino, exótico. Sempre lhe encantara a originalidade de Sophia. Agora, porém, nada disso continha a excitação de havê-la localizado. Galopou o site com sofreguidão, pois seria pobre e lento afirmar apenas que ele navegou por aquelas paragens eletrônicas.
A partir dali as transformações se sucederam engolfadas por dias em que a sucessão de eventos lhe pareceu devagar como um download que nunca chega...
Enfim, vinte e nove e-mails depois, passagem na mão, nem podia acreditar que estava partindo ao encontro de um ímpeto. Dera asas a um sonho. Rompera padrões, descartara cotidianos pesados. Desertara da vida que o arrastara nos últimos anos e agora, liberto, partia. A passagem da Alitália na mão e a voz no alto-falante anunciando o número de seu vôo asseguravam-lhe que tudo estava acontecendo mesmo .
Partia ao encontro de Sophia, Siena, café gelado com açúcar líquido... Suprema delícia! Suprema (a) ventura! Averiz!

Averiz, p 92-96 consta da Coletânea: “ Presença AGEI: Prosa e Versos Coletânea AGEI” Porto Alegre: Associação Gaúcha dos Escritores Independentes, 2008. 96p.

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Zilá P. Mesquita

E-mail: zilamesquita@yahoo.com.br

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