A cama


Karen Minatto

Sou grande, tenho dois andares, guardo memórias de um tempo bom. Do tempo em que a felicidade imperava, que a alegria estava presente e que a paixão abalava todos os meus cômodos.

O tempo passou e o que antes era vívido, ardente, pulsante e colorido esfriou, perdeu a cor, o ritmo, empalideceu. Lembranças de uma vida que pulsava sonhos e almejava projetos. Uma vida que hoje era apenas uma vida. Que junto comigo estava sendo vendida se esvaía e deixava em cada parte minha sua marca, sua impressão digital.

Os móveis da sala, todos cobertos por lençóis brancos, escondiam por baixo do pano tudo que viram e vivenciaram. O sofá, antes testemunha das carícias e dos momentos de intimidade de meus antigos donos, hoje era mais um móvel, esquecido, com memória embaralhada e fadiga pelo passar dos anos.

No meu andar de cima uma sala ampla, dois quartos e um banheiro. Num dos quartos lá estava ela, que presenciou cada toque, cada beijo, cada gemido. No quarto do casal, a cama.

De madeira desbotada e já com marcas do tempo. Arranhões pelas suas pernas e cansaço por suportar um colchão de mola que, apesar do longo período em que esteve ali, permanecia robusto e firme.

Ela estava cansada, surrada e desmotivada. Fazia tempo que não vivenciava o casal que, entre os lençóis, trocava confidências, juras de amor eterno e afagos. O colchão, junto com ela, fazia uma bela dupla e, nos momentos de solidão, tristeza e abandono dava suporte para aquela que tão calorosamente aguentava o seu peso de forma delicada e ao mesmo tempo forte.

Em breve, receberiam os novos donos e torciam para que eles pudessem aceitá-los como estavam, com todas as suas cicatrizes e lembranças. Juntos, sonhavam com um recomeço, e, com a possibilidade de, de repente, ficarem frente a frente com o amor novamente.

Essa ideia os animava para uma possível nova vida, para um novo reinício. Quem sabe, para noites quentes e regadas de sentimento como antes. Dos donos atuais só restaram lembranças e o vazio da partida de uma parte do casal que antes jurava que ficaria para sempre.

Aquela possibilidade os deixava extasiados, ao mesmo tempo que preocupava a cama, quando pensava, diante tanta desilusão vivida, quanto amor ainda seria capaz de suportar depois de tanta dor. Antes quente, hoje marcava a frieza da solidão e o vazio de um quarto gelado e oco de emoção.

Ante o fogo da paixão, o toque da pele, a ânsia do desejo e a profundidade do sentir, quanto de amor aguenta uma cama?

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Karen Minatto

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