Vento no Litoral


Karen Minatto

Frio. Inverno. Vento minuano. Chuva fina lá fora. Dentro do apartamento, chocolate quente, lareira aquecendo o ambiente e música tocando.
O disco de vinil, uma das paixões de Laura, ecoava Vento no Litoral, música da banda Legião Urbana.
Sentada no sofá de veludo lá estava ela, de pijama de flanela rosa, caneca de chocolate quente nas mãos e o olhar e a mente longes.
Entre uma nota e outra, o sorriso no rosto de Laura se misturava com uma lágrima que teimava em escorrer pelo seus olhos. Quem via aquela mulher de cabelos longos negros, esguia e de olhos verdes, jamais imaginaria a dor e a saudade que carregava no peito.
Aquela música trazia lembranças de um tempo bom. Uma época em que ela pôde experimentar o gosto doce da paixão e saborear, concomitantemente, o sabor amargo da despedida.
O pensamento longe logo foi interrompido pelo bater da porta de entrada e pelo grito de Cíntia:
-Oi, Laura! Cheguei!
Rapidamente, Laura secou o rosto e se levantou do sofá indo ao encontro da amiga e colega de apartamento que se encontrava na cozinha:
-Oi, Cíntia. Fiz chocolate quente. Deixei um pouco para você.
-Com os olhos radiantes, Cíntia respondeu:
-Quem tem uma melhor amiga tem tudo. Obrigada!
Cíntia ligou o fogão para aquecer o chocolate quente e Laura voltou para a sala, para aquele momento que era só dela. Mexeu na vitrola escolhendo novamente a faixa da música que mais gostava e que trazia, para ela, lembranças incríveis.
Lembrava, como se fosse ontem, do dia em que ela e Paulo haviam se conhecido. A troca de olhares, os sorrisos, a música de fundo. Ah, aquela música! Sempre aquela música.
Nunca foi tão feliz na vida como naquela época. A relação com Paulo era ótima, a sintonia que os dois tinham era algo inexplicável. Gostavam das mesmas coisas, almejavam os mesmos projetos e tinham a mesma visão de mundo.
Depois de tantos relacionamentos fracassados e de tantos caras errados aparecerem em sua vida ela estava certa que, enfim, havia chegado o seu momento de ser feliz.
Foram quatro anos de muito amor, cumplicidade e parceria, até o dia em que aconteceu.
Para Laura estava tudo bem. Não havia dúvidas. Paulo seria seu parceiro de vida e estaria para sempre ao seu lado. Não imaginava que, por uma oportunidade profissional em outro País iriam terminar algo que estava sendo construído com tanto amor e zelo.
Lembrou com detalhes do dia em que ele chegou em casa e disse que precisava ter uma conversa séria com ela, comunicando que em uma semana estaria embarcando para a Austrália por questões profissionais.
Sem entender nada do que estava acontecendo, Laura indagou a decisão. Não estava acreditando no que estava ouvindo. Nada fazia sentido.
Paulo, então, lhe disse que era uma oportunidade única, e que sabia que, em razão da mãe, Laura se negaria a acompanhá-lo.
Escutando com atenção os detalhes do que ele dizia e levando em consideração o fato de que sua mãe precisava dela por perto, Laura achou melhor terminar a relação. Nunca acreditou em relacionamento à distância e confessou a Paulo que jamais saberia lidar com a relação daquela forma. Os dois se abraçaram e choraram muito. Estava selado o fim.
No dia marcado Paulo partiu. Com o coração despedaçado Laura foi se despedir. Mais uma vez a vida estava lhe pregando uma peça.
Enquanto ele se afastava em direção ao embarque, Laura se perguntava em silêncio como aquilo estava acontecendo, como duas pessoas que se amavam poderiam ficar longe uma da outra e serem felizes.
Laura o amava sim, mas o destino não quis que ficassem juntos.
Depois da morte de seu pai, sua mãe entrou em profunda depressão, o que a tornou muito dependente da presença e dos cuidados de Laura.
Se não fosse aquela situação, certamente ela teria viajado para a Austrália, cheia de planos e de sonhos na bagagem. A vida não quis. E mais uma vez riu da cara dela.
Um ano havia se passado, mas Laura não conseguia esquecer tudo o que havia vivido.
Não conseguia esquecer Paulo e tudo o que ele a fez sentir.
Com a música ao fundo, vivenciou o calor de seu abraço. O seu cheiro. O seu toque.
Nunca uma música fez tanto sentido. Afinal, entendeu porque gostava tanto de ouvi-la, e, em voz alta, ela ressoou a letra, que trazia à tona a dura e triste realidade:
- Dos nossos planos é que tenho mais saudade. Quando olhávamos juntos na mesma direção. Aonde está você agora. Além de aqui dentro de mim? Agimos certo sem querer. Foi só o tempo que errou. Vai ser difícil eu sem você. Porque você está comigo o tempo todo.
Enquanto ecoava a melodia, enfim compreendeu.
E, em meio às lagrimas que escorriam em seu rosto, apareceu um sorriso, quando ela entendeu que só a saudade é capaz de eternizar o amor e que só o amor é capaz de deixar marcas positivas tão profundas em alguém.

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Karen Minatto

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