Rodrigo?


Ana Helena Reis

Tudo pronto para a viagem. Lucila passou para pegar Rodrigo, amigo de seu filho de dez anos que, pela primeira vez, iria passar o final de semana com eles.

Na porta do prédio, perfilados, os pais se despediam do garoto como se ele fosse fazer uma viagem interplanetária com duração indefinida, tal era o aperto dos abraços, recomendações e lágrimas.

Filho único, criado em uma família bastante conservadora, Rodrigo tinha que enfrentar a convivência com uma mãe super protetora e possessiva. Era uma criança cheia de vida, risonha, e se dava muito bem com seu filho, mas que tinha poucas oportunidades de se divertir fora de casa. Como ela tinha estabelecido uma relação boa com os pais, conseguiu, depois de muita conversa, que eles permitissem essa viagem com sua família.

Os dois garotos se sentaram no banco de trás da perua, e tagarelavam sem parar na maior animação. Rodrigo não cabia em si de contente com a liberdade recentemente conquistada; os dois faziam planos mirabolantes sobre o que iriam fazer quando chegassem na praia, às gargalhadas.

Pegaram a estrada ainda claro, dia lindo, ensolarado, em direção ao litoral norte. O pai dirigia com cuidado e ela, ao lado, fazia um crochê para se distrair e ria, escutando os planos da dupla.

Ao iniciar a descida da serra, o tempo mudou e, de repente, eles se viram em meio a um temporal de verão, daqueles que não se enxerga um palmo adiante do nariz. Já estava começando a escurecer, então diminuíram ainda mais a marcha.

Lucila seguia tranquila, pois o marido era um motorista muito experiente, conhecia bem a estrada. As curvas eram fechadas, a pista de mão dupla e a estrada recortava a serra do mar pela beirada dos morros. Um trajeto lindíssimo, mas perigoso especialmente na pista descendente, pois tem uma ribanceira à direita, só protegida por guarda-corpo em alguns pontos, não em todo o percurso.

Os garotos, alheios ao que se passava, cantavam às gargalhadas sua versão grotesca da música infantil “O que tem na Sopa do Neném”, bem próprio do humor na sua idade.

Subitamente, uma caminhonete na direção contrária, subindo a serra em altíssima velocidade, desgovernou e atingiu o carro da família de frente, jogando a perua fora da estrada, justamente em um trecho sem proteção.

Com o forte impacto, não houve possibilidade de comando e a perua rolou de costas pelo morro abaixo, em meio à floresta. Batendo de um lado para o outro nas árvores, airbags estourados. Olhos fechados, Lucila sentiu que era iminente o mergulho do carro no vazio do precipício. Naquela fração de segundos, não conseguia pensar no presente –só percebia flashes da vida passando como um rolo de filme antigo, rebobinando.

De repente o carro estancou, com grande estrondo. Alguma coisa, provavelmente uma pedra de grandes proporções, segurou a queda fatal.

Lucila percebeu que estava viva, apesar de mal conseguir respirar por conta do impacto no peito, nem sair do espaço em que ficou presa. Silêncio total, absoluto. Só escuridão. O pânico tomou conta. Ela não conseguia sequer distinguir onde estavam todos, em meio àqueles bancos revirados, ferragens, pedaços de árvore e terra em que tinha se transformado a perua. Sua reação foi, então, chamar cada um pelo nome, com o que lhe restava de voz.
Só uma pessoa não respondeu – Rodrigo.

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Ana Helena Reis

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