Norinha


Rosane Rommel Cardoso

Norinha nasceu desmilinguida, sobressaindo as duas orelhas de formas incomuns e os gêmeos olhos apertadinhos um contra o outro e agarrados ao nariz, como dois meninos inseguros à saia da mãe. Foi muito choro na casa. A mãe, depois de algum pranto pela aparência da menina não corresponder ao seu sonho, conformou-se com a situação e passou a amar aquela filha como ela era.
Logo após o nascimento, foi uma romaria até a casa para ver aquele bebê diferente. O povo ficava sério frente à família e, na rua, desatava em riso e a dizer maldades.
— Genética, genética, não há o que fazer — diagnosticavam os médicos.
A criança crescia. Cedo aprendeu as letras e a formar palavras. E suas orelhas espichavam e se torciam a qualquer murmúrio de um som novo. Foi guardando num saquinho cada uma delas como pedrinhas preciosas e bolas de gude coloridas, assim como “La Huesera” guardava ossos. Eram como lúcidos olhos frente à sandice que acometia o país.
Sua mãe, mulher de leituras, satisfeita com esse gosto da menina, lia-lhe livros todos os dias. E foi conhecendo escritores. Se tomou de paixões por Mia Couto e Manoel de Barros. E passou a fazer conjuminações e invencionices, aumentando cada vez mais o seu vocabulário.
Outra mania de Norinha era andar descalça.
— Vai colocar um calçado! — falava a mãe.
— Não, eu preciso me descalçamentar para sentir o coração da terra.
E foi crescendo sob risadas e deboches, tanto por sua figura como pelo palavreado. Aos poucos, as pessoas foram acostumando-se. Vagueandando, ela metia a mão no seu saquinho e, entre palavras aprendidas e outras inventadas, compunha histórias.
E sua fama de contadora ganhou o país e chegou aos ouvidos do presidente.
— Hermesto, vá investigar quem é esta que anda usando palavras novas. Os livros já têm palavras demais — grunhiu ele.
E assim foi feito. E o encarregado foi espionar a menina.
— E então? — inquiriu o dirigente.
— É uma coutomunistinha!
— Que passem a circular na internet desenhos desta fedelha orelhuda — disse o presidente desdelicado.
E os memes viralizaram. Parte da população debochava e ria. E o governante, não contente com isso, lançou um decreto proibindo qualquer palavra nova. E Norinha, sonhambulante, não se deixou abater por choraminhices. De um lado para o outro, pensava no que fazer. O Manoel de Barros já se infinitara a escrever insignificâncias por outros prados dentro de um caramujo ou em cima de alguma pedra. E o Mia estava em lonjuras de distâncias. O mandachuva, obcecado com a jovem, mandou o desdelegado lhe prender.
Mia Couto, sabendo disso — pois a fama de Norinha atravessou oceanos —, escreveu-lhe uma cartinha.
— A única solução é te meninar outra vez, para fazer tuas brincriações quando os tempos desanuviarem.
“Será que eu consigo?”, matutava Norinha. E foi definhando, até virar um feto de novo. No renascer, não tinha mais as antenorelhas, mas, olhando-se bem, havia um nariz farejador naquele rostinho, à cata de qualquer boa história.

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Rosane Rommel Cardoso

E-mail: rosanerommel@hotmail.com

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