Tempo, tempo, tempo


Soraya Jordão

Sentados na sala assistindo a uma série que o meu marido escolheu, por um instante reparo no poder ardiloso da rotina. Ele numa ponta do sofá, sem camisa, barriguinha mostra, samba canção puída e celular na mão pra não perder uma curtida. Eu, na outra ponta, com um pijama de ursinho encardido. Nada de calcinha de renda ou lingerie, muito pelo contrário, bem à vontade na calçola cor de burro quando foge. A perna sem depilar e o cabelo preso com lápis, porque morro de calor, mas não posso ligar o ventilador porque ataca a rinite dele.
Nós dois aqui nessa sala que sonhamos juntos vivendo como dois avulsos. E, antes que me interpretem mal, vivendo bem como dois avulsos. Sim, sem brigas, ofensas ou discussões. Mais do que isso, somos divertidos, animados, amigos e por que não dizer, quase irmãos? Dividimos os afazeres, combinamos o cardápio da semana, planejamos a pintura da casa, assistimos séries, torcemos um pelo outro. Antes da pandemia, fazíamos almoço de família aos domingos, recebíamos amigos em casa. Perfeitos, só não nos encontramos na cama. Bom, até nos encontramos sim, mas para um meigo beijo na testa e um carinhoso boa noite.
Na telinha, o casal da série ensaia uma coreografia de línguas de causar inveja a qualquer cristão. Olho de rabo de olho na expectativa de flagrá-lo flertando com a outra da TV, mas pra minha surpresa ele cochila.
Será que está mesmo dormindo? Ou assim como eu fecha os olhos pra matar a saudade do que fomos? Parece que foi há tanto tempo, mas foi apenas há três anos que tudo aconteceu: Eu na festa da Andreia, vestido preto, de renda , decotado, colado no corpo, salto 15, cabelo escovado, argolas douradas, batom vermelho, me preparando para ir embora, ouço um alvoroço, umas risadas. Era ele. Blusa vermelha, calça jeans, tênis, barba bem feita e aquele sorriso de jujuba. Daí pra frente não sei precisar o que aconteceu. Só lembro que pedi licença para passar. Ele sorrindo me disse que eu não precisava ter pressa, iríamos pro mesmo lugar. Jogando o cabelo pra trás para fazer um charme, respondi que era pouco provável, porque eu estava indo embora para minha casa. O engraçadinho pegou na minha mão, se aproximou do meu ouvido e disse: “que coincidência, eu também.” Tive que rir. Fiquei mais duas horas na festa e nunca mais desgrudei do seu bom humor.
Agora, vendo nosso estado nesse sofá, fico pensando : cadê a mulher da argola dourada e vestido de renda? Cadê o cara da cueca Calvin Klein branca? Cadê as noitadas sem fim e as cenas tórridas de paixão no elevador? Decido fazer uma surpresa. Quando ele vier deitar, estarei vestida como naquela noite. Abro a porta do armário, pego o vestido, o sapato, as argolas, vou para o banheiro me trocar.
Saio de lá no meu confortável pijama de urso. Detesto roupa me apertando.

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Soraya Jordão

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