Amora, a amiga do tempo


Soraya Jordão

Amora era uma menina muito esquisita. Enquanto a gente brincava de pique, ela rodopiava sozinha, olhos fechados e risos ao vento. Dizia que era amiga do tempo.
Na prova, não passava nervoso. O dever estava sempre em dia. Quando eu reclamava de muito trabalho, ela ria e dizia:
— Se é para fazer, faz sem reclamar. O Tempo gosta de quem sabe aproveitar.
Um dia correndo no recreio, caí feio. Quando vi o sangue escorrendo pela perna, fiquei zonzo. Achei que fosse desmaiar. Amora, adivinhando meu pensamento mais tenebroso, tratou de me acalmar:
— Não precisa levar ponto. Logo vai sarar.
— Como você sabe?
— O Tempo mandou avisar.
Não sabia se era maluquice. Preferi acreditar. Amora estava certa. Dias depois voltei a brincar.
Nesse mesmo ano, a professora mais querida, tia Rita, anunciou sua saída. A turma toda chorou demais. Amora nem uma lágrima deixou cair. Não aguentei, fui perguntar:
─ Amora, você não gosta da tia Rita?
Amora abriu seu sorriso de muitos dentes e respondeu sem demorar:
─ Adoro. Só que o Tempo disse que vai passar e o amor vai ficar.
Só ela parecia ter certeza da continuidade das coisas. Eu, que achava ela doida, comecei a acreditar. Primeiro, porque suas palavras me acalmavam feito sorvete de flocos. Depois, porque mesmo que parecesse esquisito a cabeça de vento ser amiga do tempo, o que ela dizia sempre acontecia. Juro, posso provar.
Quando meus pais se separaram fiquei muito triste. Eu não queria aceitar. Pedi a Amora que perguntasse ao tempo se eles iriam voltar. Ela olhou para o céu, como se o tempo morasse lá, fechou os olhos por uns segundos e respondeu:
─ O Tempo disse que você vai se acostumar. A dor vai passar.
Bingo! Meses depois não chorava mais.
Eu já estava certo do seu poder quando chegou a pandemia. Ficar em casa, sem poder ir à escola, brincar com meus amigos ou ir à casa da minha avó, é muito ruim. Ouvir todo mundo prometer que a vida vai voltar ao normal e esse dia nunca chegar, é ainda pior. Eu só penso em Amora. Ela, a amiga do tempo, deve saber o que vai acontecer.
Na telinha, todo dia vejo seu olhar viajante e o mesmo sorriso de antes. Quero muito perguntar, mas como posso fazer isso? Se eu colocar no chat, eles vão me zoar.
Ontem, pedi ao tempo para me ajudar. Fiz como ela sempre fez. Olhei para o céu, fechei os olhos e falei: tempo, dá um jeito. Preciso encontrar com Amora.
Nada aconteceu. O tempo não respondeu.
Hoje, saindo do médico, ouvi uma risada sem igual. Virei rápido. Mal podia acreditar. Era ela. Amora estava ali.
Soltei a mão da minha mãe. Corri o mais rápido que deu. Cheguei o mais perto que pude e gritei:
— Amora
Ela se virou e, mais uma vez, adivinhou o meu pensamento mais terrível.
— Oi! Daqui a pouco a gente vai brincar de novo.
— Tem certeza?
— Claro que sim. O Tempo me contou que se ele passa, a pandemia vai passar também.
Dentro da minha cabeça, senti como se meu time tivesse acabado de ganhar o campeonato. Se Amora disse que vai passar, quem sou eu para duvidar?
Agora, eu acredito. O Tempo mandou avisar: Tudo vai passar, é só esperar.



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Soraya Jordão

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