Mãe, arruma essa cara


Rosane Rommel Cardoso

Eu estou em um ônibus quando entra uma mãe com o filho pela mão. Um menino de não mais de quatro anos. Bermuda jeans, camiseta branca, boné vermelho e chinelinhos havaianas. Sentam-se em minha frente. De início, mantêm-se em silêncio.

— Téo, por que tá tão calado?

— Mãe, quem é a Elisa?

— É a mãe do Fabinho.

— Ela morreu?

— Morreu.

— Ela não vai envivecer mais?

— Não, depois que se morre, não se vive mais.

— E agora? O Fabinho não tem pai! – diz, com o olhar alarmado.

— A mãe permanece quieta.

— Mas ele não é grande. Pode dormir sozinho?

Neste ponto da conversa a mãe vira para o corredor e não consegue responder ao filho.

— Tu não tens mais mamãe?

— Não, filho. A tua vó partiu há muito tempo.

— Pra onde?

— Pro céu!

— Mas no céu só tem nuvem, sol, avião, passarinho. Gente, não!

— Modo de dizer, filho.

— Com quem o Fabinho vai ficar?

Alguém da família, uma avó, uma tia, uma pessoa que goste muito dele.

O menino fica olhando para a mãe, pensativo. – Mãe, arruma essa cara! Por que tá com essa cara?

— Tô triste, filho.

A criança vira-se para a janela. O ônibus corre mais que as casas que vão ficando para trás. Ele movimenta a cabeça numa busca. – Olha, olha mãe! O trator tão bonito, tão novinho. Não fica triste.

A mãe abaixa a cabeça e chora.

O menino toca a mãe e diz – arruma essa cara, mãe, por favor, arruma!

A mãe envolve o filho com os braços.

Téo e a mãe descem na próxima parada, a mesma minha. E seguem de mãos dadas. Eu fico sentada pensando nisso tudo e me dou conta que perdi a descida. Penso na menina que fui um dia, agarrada à grade de uma casa de acolhimento, colocando a mão pra fora para qualquer um que passasse. Pedindo que me segurassem a mão.
Quando descobriram, proibiram de eu ir para a frente. Desço na próxima parada e o sereno me atinge com suas minúsculas gotas de chuva. E lembro a frase que um adulto me disse há muito tempo, quando eu tinha um buraco no peito. As mães quando se vão, voltam em forma de bruma, para nos envolverem nas horas frias dos invernos que estão por vir. Aperto o casaco contra o corpo. Até hoje... a neblina... só me molha!

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Rosane Rommel Cardoso

E-mail: rosanerommel@hotmail.com

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