A força de um abraço


Leney Veloso

A FORÇA DE UM ABRAÇO
LENEY VELOSO
Ao término dos aplausos ela desce do palco contendo um gemido pelas dores no pé dentro do salto. O sorriso já cravado no rosto se mantém, enquanto atende a pequena multidão que a cercou assim que desceu o último degrau. O suor escorria por sua nuca e pelo meio das costas. A lembrança do, antes, sempre presente, lenço a fez ter certeza de que o calor poderia ser pior. Os, agora, cabelos soltos não vieram sem muita luta interna para se libertar das tradições tão arraigadas em sua educação. Aceitar o café ocidental era outra imoralidade, mas era tão bom. Seria melhor se não queimasse a língua.
Ela caminhou lentamente entre as pessoas ainda a cercando, atendendo todos com simpatia e cordialidade. Seu trabalho era sua paixão, mas às vezes era estafante. Adoraria voltar para o hotel e dormir por dois dias seguidos. Impossível. Tinha pela frente a sexta-feira e mais uma rodada de palestras, depois estaria livre. Por um instante lamentou que seus planos iniciais para o fim de semana não seriam concretizados. Ele não viria. Estava muito longe e tinha outros compromissos.
Balançou a cabeça, afastando as lembranças e a decepção e tristeza que vinham com elas, e voltou a sorrir. Tentou bebericar o café, mas continuava quente demais. Respondeu mais uma pergunta que lhe fizeram e seguiu adiante, pensando se ficaria muito feio tirar a tampa do copo e assoprar no meio a toda aquela gente.
Mais um passo e quase se chocou com um homem. Seu estômago contraiu, o coração acelerou uma batida. Aqueles olhos, aquele sorriso. Não. Não era ele. Quantas vezes seu cérebro lhe pregou essa peça? Quantas vezes o viu na rua, no supermercado, na feira, no homem que acabava de virar a esquina? Nunca era ele. Aquele com quem fantasiava estava em outro continente, não ali na sua frente.
Afastou-se, mas a sensação repentina de perda a fez parar e olhar para trás. Tão parecidos. Mas tão parecidos. Retornou. Ele havia se sentado e mexia no celular. Ao mesmo tempo que se encararam, o aparelho dela acusou a chegada de uma mensagem.
Aqueles olhos, aquele sorriso. Era real. Desta vez não era sua mente lhe pregando uma peça. Ele estava ali, perto, muito perto. Seu corpo todo vibrou, cobrando algo que sua tradição lhe dizia ser imoral, mais do que expor seus cabelos em público ou tomar um café em um copo de papelão. Seria como se, de repente, ficasse nua na frente de todas aquelas pessoas. E o que importava? Era ele, ele.
Abandonou o copo do café intocado sobre o banco e fez o inimaginável, envolveu seus braços entorno do corpo masculino e apoiou seu rosto no peito dele, aspirando seu perfume inebriante. Sentiu os braços dele a envolvendo de volta e escondeu um sorriso satisfeito contra o casaco dele. Ela havia feito. Era uma transgressora e nunca havia se sentido mais livre, mais satisfeita.
Ele tentou falar alguma coisa, ela o calou. Não queria ouvir ou falar. Naquele momento só queria contemplar todo o turbilhão de sensações que sua transgressão lhe causava. Ah! Se seus pais a vissem. Em outros tempos seria arrastada e apedrejada em praça pública. Naquele momento não. Naquele momento ela estava nos braços de quem havia desejado mais do que tudo. Naquele momento a força daquele abraço estava lhe mostrando que para ela nenhum caminho era proibido.

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Leney Veloso

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