Bela


Leney Veloso

O topo da torre se sobressaía às árvores, cavalguei naquela direção. A construção de pedras se elevava vários metros em uma clareira no meio da mata. Musgo e plantas brotavam nos vãos das pedras. Desci do cavalo e ele se manteve por ali, pastando o mato alto.
Rodeei a torre a procura da entrada, precisei usar minha adaga para cortar as trepadeiras entrelaçadas na pedra, quase desisti, mas algo me impelia a continuar. Encontrei uma passagem escondida entre entulhos e o restante de uma parede do que um dia foi uma construção imponente. Precisei me espremer para poder passar.
O cheiro de umidade e mofo irritava o nariz. A escuridão era rompida por pequenas gretas de luz aqui e acolá até o topo da torre, ressaltando as partículas de poeira dançando no ar. A escada em espiral não parecia segura. Olhei para entrada apertada por onde havia passado e segui em direção ao primeiro degrau. Enxerguei meu cavalo, ainda pastando, pela primeira fenda nas pedras e, a cada vão, a paisagem se estendia, até se perder no horizonte.
Uma porta de madeira bloqueou meu caminho no topo da torre, mas cedeu com um leve empurrão. Fechei os olhos com a claridade repentina depois da penumbra nos degraus. Ali o cheiro era mais limpo, o ar mais fresco. Depois que meus olhos se acostumaram com a luz, precisei piscar para ter certeza do que estava vendo.
Uma cama no meio do cômodo circular já era surpreendente, mas a mulher deitada sobre ela, com a luz do sol entrando pela janela, destacando-a como se indicasse o caminho, parecia inventada. Pisquei novamente, elas continuaram no mesmo lugar, a cama e a moça. Meus pés me levaram para mais próximo. A jovem adormecida parecia serena, como no sono dos inocentes.
Seus cabelos cheios e encaracolados se espalhavam pelo travesseiro, emoldurando o rosto suave com a cor dos melhores runs. Os lábios fartos pareciam me convocar a prová-los. Sem perceber me aproximei mais um passo e então outro. Os seios redondos se insinuavam pelo decote discreto, as curvas do quadril plano e as pernas longas completavam a pintura etérea digna dos grandes mestres.
Beijei-me, diziam os lábios mudos. Beije-me, eles insistiam.
Envoltos na névoa do encantamento meus joelhos se dobraram, levando-me ainda mais próximo.
Beije-me...
Meu corpo se inclinou, perto, tão perto.
Beije-me...
Qual o sabor de um beijo não correspondido?
Beije-me...
Tão bela.
Tão adormecida.
Beije-me...
Meus dedos ganharam vida própria, afastaram um cacho macio e escovaram a maçã do rosto, descendo em direção ao pescoço.
Beije-me...
Qual o sentido de uma carícia sem a recompensa de um suspiro?
A pele morna da garganta pulsou contra meus dedos.
Minha outra mão desceu em direção à calça. Apanhei meu celular no bolso e liguei para a emergência. Seja o que for que ela tenha ingerido ainda havia tempo para salvá-la.

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Leney Veloso

E-mail: leneymv@hotmail.com

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