Poeta sim (Crônica)


Mara Lígia Biancardi

Vivemos, distinta e artisticamente falando, entre dois grupos de pessoas, os que amam arte e os que passam longe dela.
Eu vivo desse objeto estranho para a opinião de muitos. Não é fácil, não. Acordo cedo, medito, tomo um bom café e saio de bicicleta com os quadros de meus poemas na traseira. Fico o dia e uma parte da noite trabalhando. Lá, faço de tudo um pouco: teço versos, produzo o esqueleto do quadro, recito os poemas em voz alta, converso. Volto no final do período noturno somente com tempo para as necessidades básicas.
No meu ponto de vendas, preciso chegar cedo, antes que qualquer outro vendedor se aproprie do lugar. Prédios gigantes moram ao lado, executivos finos cruzam a avenida aos montes; aos finais de semana, transeuntes de todo o tipo resolvem sair para caminhar. Vendo meus quadros? Sim, senão não estaria lá de quarta a domingo, mas comparando com o número de pessoas que circulam dia e noite, nem sonhar, vendo o suficiente para viver o razoável.
O incrível é que as pessoas preferem gastar cem reais em um lanche artificial, que não nutre o corpo, a comprarem alimento para a alma. E não digo isso só pela minha arte não, isso é no geral. Converso com as pessoas das livrarias, elas dizem que precisam fazer das tripas ao coração para vender livros. Época de crise, então? Os leitores suspendem o pouco que compram.
Meus amigos artistas vivem inovando para não morrerem de fome. Eu já pensei até em jejuar, como o artista da fome, para ver se as pessoas reagem, mas não chegaria a tanto.
E sabem o que é pior? As pessoas que não leem, são as primeiras que dão pitaco nas redes sociais, escrevem com a mão cheia, pensando serem os filósofos da vez. Mas quem lê texto literário? Quem argumenta apropriadamente? I wish we could, porque nem mesmo eu me sinto preparada para argumentar tanto assim. Artista no Brasil leva uma vida difícil, em sua maioria, exceto os que têm o privilégio de viver dignamente somente de sua arte.
Outro dia me perguntaram porque quis ser poeta, eu enrolei, enrolei e não respondi. Seria escolha? Ainda bem que no final da conversa a pessoa levou um quadro meu de um poema que gosto muito, o Embriaguez:
“Mais e mais
respiro
os versos do poema.
Enquanto respiro,
embriago-me
na poesia de seus versos.

Essa moça estava em São Paulo pela segunda vez, numa reunião de trabalho. Para ela, tudo era lindo.
Algumas pessoas pensam que escrever é se desligar do mundo real, ir ao mundo de Nárnia ou à Macondo, criar, criar, criar, voltar ao mundo real e fazer negócio com sua arte como o pão de cada dia. Pensam que o artista, muitas vezes, não têm vida própria, nem problemas. Ainda bem que, algumas vezes, alguém reconhece o trabalho realizado, se encanta com a poesia e acontecem encomendas incríveis. Uma vez, uma senhora encomendou vinte quadros de uma só vez, em contrapartida, há dias que vendo dois ou três no máximo.
E sabe o porquê disso? Porque ler poesia não é o que está na moda, não é o iphone da vez, não é o lanche mais gostoso, nem a roupa fashion do momento. Ler poesia dá trabalho, provoca, desestabiliza, P O E T I Z A.
Quer saber mais? Quer saber o que consideram mais gostoso, uma tarde na piscina ou ler poemas de Mario Quintana ou João Cabral de Melo Neto? Enough. Até eu me cansei de filosofar.
Mas sobre a pergunta daquela moça, por que escrevo? Escrevo porque os versos drenam as veias da minha alma, ou melhor, escrevo porque amo, caramba.



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Mara Lígia Biancardi

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