A Angústia da Pérola (conto)


Mara Lígia Biancardi

Sentada à escrivaninha, a mulher inquieta mexia no estilete, virava-o para cima, virava-o para baixo. Sozinha na noite debruçava em seus sentimentos sombrios e sua cabeça fervilhava, uma mente deveras atribulada para uma pessoa só. O estilete caiu de sua mão e riscou a superfície da mesa. Foi à cozinha e tomou um copo de água. Voltou ao seu quarto, sentou-se à escrivaninha novamente... pegou um lápis e o apontou com o estilete. Deixou a pequena faca ao lado e começou a rascunhar algumas linhas; escrevia, apagava; escrevia, apagava. Saíram os primeiros versos, mas seus pensamentos a atormentavam a ponto de tirar-lhe a poesia do poema.
Teia de aranha
Teia de pensamentos
Pensamentos em teia
Emaranhados na mente...
As palavras saiam truncadas e a rima desaparecia, então pegou um cigarro com sabor de menta e foi fumar na varanda. Olhava para as estrelas e divagava como seria sua vida em outro mundo. Observou a lua. E, finalmente, escreveu:
TRAMA
emaranho-me na teia dos meus pensamentos
que sejam eles edificantes
do contrário, presa
nos finíssimos fios de seda
serei a presa de mim mesma
Satisfeita, foi dormir.
Logo ao amanhecer, foi à biblioteca, pegou uns livros que precisava para seu trabalho e retornou para a casa. Escrevia artigos, ensaios e crônicas sobre temas diversos, mas ler e escrever poesia eram sua paixão. Sempre que podia, mergulhava nos livros, lia e se deliciava nos versos de seus autores favoritos.
Trabalhou o dia todo, parou para um cigarro e foi até a varanda novamente. Sozinha olhava para o portão, ouvia sua voz. Enxugou as lágrimas e entrou. Cabisbaixa, pegou algo para comer, sentou- se no sofá, assistiu ao jornal e acabou dormindo. De madrugada, tomou água e foi para a cama.
Levantava todos os dias, trabalhava, comia, fumava, dormia; trabalhava, comia, fumava e, quando conseguia, rascunhava seus versos:
SOLIDÃO
Nascemos sozinhos,
Morremos sozinhos
Na vida, o só me acompanha
Um nó que amarra
Não desata
Um nó que incomoda
Aqueles que estão só
Voltava ao trabalho, comia, fumava, dormia. Ficava horas pensando no sentido da existência, da morte, do ser ou não ser.
Não foi sempre assim, mas a vida a calejou brutamente que não sentia mais prazer nas suas horas. Em alguns momentos sãos, via um fio de esperança. Pensava que podia virar o jogo, mas a dor era tamanha, que logo em seguida desistia.
Seu irmão morava distante, seus pais haviam falecido, amigos não tinha, depois que se mudou para lá. Apenas trocava umas palavras com uma vizinha, quando a via da varanda, porém, na atual circunstância, era melhor ficar só, pois não se achava companhia para ninguém. Restava o trabalho.
Na data prevista, entregou mais dois artigos, ganhou o suficiente para o mês. Logo, conseguiu outro mais simples, um texto para uma revista de fofoca, o que foi proveitoso, pois deu algumas risadas e se divertiu um pouco com o editor da revista.
Seus dias prosseguiram similarmente, suas leituras continuavam, e ao ler os poemas de Alberto Caieiro deparou-se com o verso: “Basta existir para se ser completo”.
Esse verso a incomodou, ficou martelando em sua cabeça o tempo todo. Como seria completa sem um pedaço de sua alma?
E continuava ouvindo: “mãe cheguei”. Quando ele chegaria realmente?
Na varanda, à tarde, tomando um chá de canela e fumando seu cigarro de menta, passou um conhecido. Ela fixou seu olhar nele e, em segundos, passou o filme do seu filho contando as novidades sobre seus estudos na nova escola, pois era outra etapa em suas vidas, depois do divórcio.
-Boa tarde, D. Pérola, tudo bem com a senhora?- perguntou o rapaz timidamente.
-Levando, meu filho...
Neste instante, entrou para casa correndo e começou a chorar soluçando desesperadamente.
Alguns meses se passaram e o aniversário dele chegou. Levantou, colocou sua melhor roupa, comprou um ramalhete de flores, uma caixa de bombom e um CD com as músicas de que mais gostava. Cruzou a pequena cidade, entrou no recanto da saudade e lá deixou os presentes. A saudade era grande, mas naquele dia, ali, sentiu que o amor de seu filho ainda estava bem vivo e lembrou-se da frase de Alberto Caeiro: ”Basta existir para se ser completo”.
Chegou em casa, trocou de roupa, voltou ao trabalho. Terminou um artigo sobre as várias faces da palavra num texto literário.
À noite, sentou-se na cadeira da varanda, observou as estrelas e se atreveu a escrever:
Do meu ventre
Uma estrela nasceu
Com amor se criou
A dor viveu
Chamada de volta
Retornou ao céu
Minha alma sangrou
Parte morreu
De onde está
Vive...
Leu, releu, não chorou, fumou seu cigarro de menta e foi-se deitar!

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Mara Lígia Biancardi

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