O jornal diário


Luciana Konradt





As mãos pequenas e trêmulas torcem e retorcem a esponja encharcada. Bolhas de detergente, espalhadas no balcão negro, formam um universo de prismas esféricos e deslizantes. Alheia à pilha de pratos ao seu lado, Rita ergue a manga da blusa e olha para o marido. Na sala contígua, o homem lê, em voz alta, o jornal. Lê títulos inteiros. Com voz grave, recita lides e artigos completos. Narra, em detalhes, até mesmo as tirinhas.

Casados há mais de vinte anos, são sócios nos negócios e dividem as tarefas domésticas. Em casa, ele prepara as refeições e ela se encarrega da louça suja. Rita descende de colonos alemães. De uma família de matriarcas. Carlos é descendente de espanhóis, estabelecidos na fronteira. O casamento funciona muito bem. Ela finge que manda. Ele finge que obedece. E os dois só discutem a relação, cada um, consigo mesmo. Nos últimos anos, contudo, Carlos adquirira o péssimo hábito de ler o jornal inteiro, em voz alta, para a esposa. E faz isso, justamente, durante as terríveis sessões diárias de pia e detergente. Não contente com a leitura demorada, exige, ainda, uma análise crítica sobre o conteúdo lido. Então, quando o assunto é polêmico, a mulher é atacada com uma enxurrada de perguntas. Um verdadeiro interrogatório, seguido de comentários e tentativas de descobrir o que se esconde nas entrelinhas dos artigos e crônicas.

- O que achas? Será verdade? Ou alguém plantou essa informação?

- Que interesse há por trás desse projeto?

- Sempre as mesmas corporações. Viu só o lobby dessa gente? É a política do toma lá dá cá Rita.

Sem ouvir uma só palavra, a mulher morde o lábio e, com movimentos bruscos, afunda, um a um, os pratos na água gelada.

- Como ele pode fazer isso! E todos os dias?

- Que grandessíssimo estraga prazeres. Insensível! Quanta falta de empatia!

Profere baixinho o último xingamento e inspira profundamente. Pega, sem perceber, a grande faca sobre a tábua ao lado. Ergue a lâmina na altura dos olhos. Mira sua imagem refletida no aço brilhante e tem pensamentos sinistros. Muito sinistros. Balança os ombros e afasta as fantasias macabras envolvendo pregas vocais e laringes. Os homens deviam nascer mudos, conclui. Olha, mais uma vez, o próprio rosto no espelho metálico e lembra-se de Alice. Apavora-se com o tamanho dos sulcos em torno da boca e percebe que está na hora de marcar uma consulta com sua médica favorita. Imagina as injeções de ácido, às dezenas, durante quase uma hora. Lembra o ambiente calmo do consultório. A luz fraca e a música relaxante, enquanto aguarda o efeito do anestésico. Recorda a dor suave das picadas e o preço salgado do tratamento. A inesperada constatação das novas rugas e da despesa urgente só faz aumentar sua raiva. Ela suspira uma, duas, três vezes e concentra-se na louça suja.

Rita transfere os pratos e talheres da pia para a máquina de lavar. Lava e seca, manualmente, as panelas. Desfaz, com lúdico prazer, o arco-íris na bolha de sabão mais próxima. Ergue, mais uma vez, a manga da blusa. Limpa o balcão e olha para o marido curvado sobre os jornais. Então, caminha, devagar, até o companheiro de toda a vida, afaga os cabelos brancos do homem mais gentil que conhecera e finge ouvir a última notícia. Esquece, imediatamente, o quanto apreciava ler, em silêncio, para si, todas as surpresas do jornal diário e, com voz doce, reclama:

- Amor, faltou o horóscopo!



* Publicado, também, no livro Bordados do Tempo / Luciana Konradt, Editora Cinco Gatas, 2021, página 61, com o título " Tempo de Doce Rotina".

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Luciana Konradt

E-mail: lucianakonradt@hotmail.com

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