Tempestade sobre o São Gonçalo


Rosane Rommel Cardoso

Era um veleiro amaldiçoado. Carregava o peso de duas mortes no seu convés. Antônio não acreditava nisso. Para Alexandra, as mortes ainda assombravam. Ficaram à deriva na noite anterior, enfrentando rajadas de vento e chuva. O cabo da âncora enroscou-se na quilha. Depois de algum esforço para resolver o problema, procuraram abrigo na Ilha Grande. Antônio navegava desde menino e dominava a cartografia daquelas águas, sabia onde estavam os sumidouros, os abrigos e os calões de pesca. Os contratempos eram comuns nas velejadas.
Na manhã seguinte, Alexandra reclamava da má sorte ao ver o céu tingir-se de nuvens cinzas em formas de bocas assoprando as velas. Um bafejo de Thanatos. A corrente no canal São Gonçalo corria rápida da lagoa Mirim para a dos Patos. O sobrevento zunia nos estais e em direção contrária à correnteza, levantando ondas e fazendo o veleiro caturrar.
Antônio tinha pressa de chegar antes da tempestade. Manejava a retranca para que a força de propulsão sobre a bujarrona auxiliasse na velocidade. Alexandra podia sentir os movimentos dele, ouvir o bater do vento sobre as velas e pressentir a água lambendo o casco. Fazia o que sabia para ajudar.
Dando mostras de sua presença, a maldição ruminava. Num choro crispado e num rangido seco, o mastro foi se partindo e tombou sobre o convés. Apelaram para o motor. Não ligava. Quando estavam próximos da margem, a tempestade despencou sobre eles.
Ele olhou para ela e gritou:
— Não discuta, obedeça! Na tempestade é que se conhece um bom marinheiro. Vou jogar o barco contra as margens e tu tentas amortecer um pouco a batida segurando nos juncos.
Antônio manejou o croque direcionando o veleiro e o impulsionou de encontro à margem. Ao agarrar-se na vegetação, abriram-se cortes nas palmas das mãos de Alexandra. O veleiro oscilou em movimentos de ida e volta até estabilizar. Pularam na água e, com ela chegando quase à cintura, rebocaram o barco até o trapiche. A cada passada, afundavam os pés no lodo que espirrava entre os dedos.
Chegaram ensopados, atracaram o veleiro e entraram na casa. Ele a enrolou numa toalha, secou seus cabelos, tratou suas mãos e foi buscar uma bebida para aquecer seus corpos gelados pelo aguaceiro. Não notou que não era somente a chuva que molhava o rosto de Alexandra. Há muito os dois afundavam em margens barrentas como as do canal. E nisso ela não tinha em que se agarrar, salvo sua própria força. Assim como ele não observou que ela se transformava de uma lagartixa — como ele a chamava brincando — numa iguana, animal de sangue frio, as escamas de proteção lhe tomando o dorso.
Quando ele voltou com a bebida, olhou ao redor, e ela não se encontrava. E viu um vulto sobre a proa do veleiro ancorado. Era Alexandra que o olhava. A chuva tocada pela ventania açoitando-lhe o corpo.
— O que foi? — perguntou Alexandra às suas costas, com dois cálices na mão.
Ele olhou para ela e voltou-se em direção à água, onde o barco balançava-se solitário.
— Estranho, juro que te vi lá fora. Claramente, eras tu! E me acenavas!
Descontraiu o semblante e continuou:
— Quem vai gostar desta história é o Dino. Vai dizer: descrente, filho de uma puta, por que comprastes este barco? Eu te avisei — e riu servindo a bebida. — Hoje estás misteriosa! — puxou-a para si. — Desisti de te entender. Podias estar no topo e jogas tudo fora. És uma insubmissa.
— Eu nunca disse que queria estar no topo.
— Queres eliminar todo o rastro meu na tua vida?
Ela não se dignou a responder.
— Será que um dia vais te lembrar de mim?
Dos defeitos dele, a ingenuidade não era um.
— O amor pode ser pródigo em estabelecer pontes sobre precipícios, mas não anula a presença deles — disse ela sarcástica.
— Filósofa, agora.
Ela deslizou lentamente os dedos pelo perfil dele, da testa ao nariz, morrendo na boca.
— Quando eu tiver sessenta anos, vou escrever a tua história — afirmou Alexandra.
— Precisas de tanto tempo assim? Se quiseres, pega papel e lápis e começa a anotar.
— Não preciso disso. Já sei o suficiente para umas cinco vidas pelo menos.
Eles riram.
— Vais me descrever como o quê? Um louco?
— Louco não, “quase-louco”, como te chama o Dino.
Novamente ele riu.
— Embora sejas um bicho do mar, tu vais deixar a tua passada marcada na terra, no teu mundo, eu escreva ou não sobre isso.
— Muito lisonjeiro da tua parte. E os que escrevem o que são?
— Quem sabe são aqueles que registram demais e vivem de menos.
— Será?
Abraçou-a. Nem sempre o ponto de encontro era num território para o combate. Que fio era este que os ligava, ela já não sabia mais. Os ponteiros do relógio já tinham arrebentado as horas, e, quando batesse a porta, seria em cima dos seus dedos.
Sentaram-se calados na varanda. Às vezes atingiam aquele entendimento mútuo feito só de olhares e de presença. A chuva amainara, sendo quase imperceptível o movimento do veleiro lutando para se livrar da corda que o prendia. Um bando de maçaricos planava no céu aproveitando a corrente de ar pós-temporal, economizando energia para o momento de bater as asas.

voltar

Rosane Rommel Cardoso

E-mail: rosanerommel@hotmail.com

Pageviews desde agosto de 2020: 823

Site desenvolvido pela Plataforma Online de Formação de Escritores