A marca do anonimato


Regina Maria Guaragna


Meu nome é Argemiro. Acordo cedo, sem mais o cheiro
de sabonete do banho da véspera, e visto minha roupa
limpa, mas surrada. Entro no ônibus sem tomar o café
da manhã. Viajo uma hora no coletivo e caminho a pé
durante vinte minutos.
Ao chegar em frente ao prédio em construção, no portão
diante do barraco, enquanto aguardo as ordens do
mestre de obras, tomo café de térmica e como pastel frito
engordurado feito pela dona Vânia. Os companheiros vão
chegando, pegando o café, o pastel e pendurando na conta.
Logo, recebemos as ordens do dia e partimos para a
construção: tijolo, cimento, concreto, elétrica, hidráulica.
Subo e desço dos andaimes com muita habilidade. Martelo,
corto, misturo, colo.
No momento, faço parte daqueles que executam um
projeto arquitetônico magnífico, luxuoso, num bairro rico
da cidade. Todo dia, preciso me esmerar para fazer o
melhor, o piso perfeito, a parede mais lisa, o mármore
mais bem colocado. Cada andar é uma etapa concluída.
Sigo trabalhando até chegar ao último andar, onde será
projetado um jardim suspenso; dele se poderá ver toda a
cidade, desde o nascer até o pôr do sol e o anoitecer. Uma
vista que renderá muitos milhões aos proprietários. É um
grande empreendimento, dizem os corretores, que fazem
plantão de vendas.
Todo final da tarde, eu, Argemiro, retorno até minha
casa, levado pela multidão no ônibus. Moro numa casa
que eu mesmo construí com restos de material. Tem estilo
próprio, como se fosse uma colcha de retalhos, uma
lajota vermelha aqui, outras com desenhos abstratos e
floridos ali. Um quarto de madeira, outro de tijolos, que
ainda não consegui cobrir com argamassa nem pintar.
Vivo nesta casa pequena com minha mulher e meus três
filhos, que estão estudando num colégio público lá perto.
Eu, Argemiro, sou um homem simples, mas não sou
resignado. Penso em ganhar meu salário para alimentar a
família, em primeiro lugar. Muitas vezes converso com os
filhos e digo que me sinto orgulhoso de seguir construindo
nossa casinha, mas, no fundo, tenho uma luta dentro do
peito.
Construo casas, apartamentos maravilhosos, com esmero.
Dou meu suor… As pessoas que moram onde construí
usufruem da minha habilidade, da minha capacidade
de fazer bem, de dar o mais perfeito acabamento. Através
do meu trabalho ostentam recebendo amigos em seus lares.
Isto me dói. Gostaria de ter o melhor, já que faço o
melhor.
Mas eu, Argemiro, continuo no anonimato. Ninguém
sabe quem construiu, quem colocou os azulejos, o mármore,
nem mesmo o vaso sanitário onde defecam igual a
todas as pessoas, ricas ou pobres. Tenho acesso à história
não contada dos prédios. Vi pingar o sangue de quem a
serra feriu, presenciei a queda e morte de um pedreiro,
soube dos namorados que curtiram na noite, entre as paredes
recém-construídas.
No último dia de meu trabalho, ao finalizar o edifício,
na véspera da inauguração, presenciei uma discussão entre
o construtor e um colega. Este havia colocado no hall
de entrada algumas pedras de mármore que tinham manchas
amareladas, próprias da pedra. A esposa do construtor
queria mármore totalmente branco e insistiu que fossem
retiradas. O colocador disse que teria que trabalhar
à noite, pois a inauguração seria no dia seguinte, e que
já estava exausto. Não teria condições físicas de aguentar
toda a madrugada de trabalho. Ponderou que faria a troca
depois da inauguração. Houve desentendimento e foi
despedido sumariamente.
Aguardei a noite chegar. Não fui para casa. Retornei
para o edifício na madrugada, usando meu casaco de capuz,
cobrindo minha face na sombra. Levava comigo um
spray de tinta preta. Subi em todos os andares e pichei
em cada um: “ANONYMOUS”.
As pessoas poderiam não saber quem foram os operários,
mas jamais esqueceriam que o prédio teve, na véspera
da inauguração, a sua assinatura social.

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Regina Maria Guaragna

E-mail: rguaragna@terra.com.br

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