A viagem


Rachel Baccarini

Depois de 225 dias de quarentena, praticamente sem sair de casa, ela precisava viajar. E agora?
Quando encontrou aquele e-mail na sua caixa de spam custou a acreditar. Há mais de uma semana ele estava ali despercebido. Como assim, uma herança? Mas é o que aquela firma de advogados dizia: “Cara Sra. Manuela Aparecida de Lima, informamos a citação do seu nome no testamento do Sr. Gumercindo Eufrásio. É imprescindível seu comparecimento ao II Cartório de Imóveis de Capitólio até o dia 30 de abril, impreterivelmente.” Tinha o timbre da firma. Não era lixo eletrônico e nem golpe. A primeira coisa que Manuela fez foi telefonar para o número de telefone no e-mail e tudo conferia.
Ela teria que achar uma forma de ir. Segundo o e-mail, o Sr. Gumercindo, seu primeiro marido, que se tornou um rico fazendeiro após a separação, havia morrido subitamente e lhe deixou uns 20 acres de terra e 300 cabeças de gado. Tudo no valor de mais de 10 milhões de reais. Manuela nunca tinha chegado perto de tanto dinheiro na vida.
- Joaquim, vamos arrumar as malas! Não vou perder uma herança. Parece coisa de conto de fadas. Mas não é.
- Calma, mulher. Primeiro vamos ver como chegar lá. Estou olhando aqui no Google. Temos que viajar de avião até Belo Horizonte. Um voo de 4 horas. E alugar um carro para chegar a Capitólio.
- Aeroporto? Avião? Ai meu Deus! Já me dá taquicardia. E o vírus, Joaquim? Está em todo lado, principalmente em aeroporto, filas, aglomeração.
E Manuela começou a suar, suas mãos começaram a tremer só de pensar naquilo. Joaquim já sabia o que viria em seguida e procurou logo acalmar a mulher. Ele já havia quase se acostumado àquelas crises, que se acentuaram nos últimos meses.
- Bom, podemos deixar de lado essa história de herança e continuar quietinhos aqui na nossa quarentena que não acaba nunca. Não somos ricos, mas também não nos falta nada, não é mesmo?
- Acho que você está certo. Não precisamos sair correndo atrás de um pote de ouro, não é mesmo? Estamos bem aqui.
Ela respirou fundo e os dois tentaram tirar a fazenda de gado no interior de Minas Gerais do pensamento. Mas foi inútil. Algumas horas depois...
- Joaquim, pensando bem, é muito dinheiro. Nosso filho poderia ficar muito bem na vida. Nós precisamos achar uma forma de ir.
- De carro até lá, eu não vou! Nós teríamos que parar para dormir em hotéis no caminho e comer em restaurantes de estrada. Nem pensar. Além do mais, quando chegássemos lá, o prazo dado pelo cartório já teria passado. Hoje é dia 27, Manuela!
- Vamos de avião. Vou ver as passagens.
Ela estava decidida. Compraram as passagens. Manuela dobrou a dose de vitamina D e Zinco, marcou uma consulta com seu psiquiatra e pediu outra receita de Rivotril. Por via das dúvidas, começou também uma novena para Nossa Senhora Aparecida. No dia seguinte...
- Joaquim, acorda, temos que estar as 8 horas no aeroporto.
- Tá bom, em meia hora estou pronto. Mas o que é isso?
Manuela já estava paramentada para viajar com um macacão branco e um moletom azul com capuz, que cobria toda sua cabeça. Por cima dele um protetor de rosto que chegava até o pescoço e uma máscara azul tampando nariz e boca. Estava de bota e com luvas azuis grossas.
- Eu não quero pegar Covid, homem! Sua roupa está ali, vai se vestir.
- Nunca vou sair fantasiado, você parece doida. Vou de máscara e está bom.
- Você quem sabe, anda logo ou vamos perder o voo.
Chegaram no aeroporto e tudo ia bem até quando entraram na fila para o RX. Não parecia uma fila mas sim uma roda de conversa na porta da lotérica. As pessoas estavam bem próximas umas das outras, se empurrando e com a pressa típica de quem tem um voo para pegar. Nada diferente de antes da epidemia.
No primeiro esbarrão com um rapaz com a máscara na boca e o nariz de fora, Manuela começou a suar abundantemente. O suor descia pela testa e embaçava seus olhos escorrendo para a máscara. Tudo isso debaixo do protetor facial que a essa hora estava todo embaçado. E ela não podia limpar com medo de se contaminar com o vírus.
- Ai meu Deus, que é isso, Joaquim? Eu acho que estou me sentindo mal.
- Vamos atravessar o RX, depois nos sentamos num lugar mais afastado.
O funcionário do aeroporto praticamente empurrava as pessoas na fila como se estivesse guiando gado para o matadouro.
-Vamos pessoal, mais rápido, dá espaço aqui por favor, pode passar minha senhora.
Depois de uns 10 minutos de verdadeira aglomeração, Joaquim e Manuela conseguem passar pelo RX e chegam na área de embarque onde conseguiram dois lugares para se sentarem na fileira de prioridades.
- Não sei o que adianta essa tal de prioridades, droga! Olha só como está cheio de jovens sentados aqui.
- Joaquim, olha só a fila se formando para o embarque. Vamos esperar todos para entrarmos sem confusão.
Finalmente o casal consegui embarcar. Manuela tinha um assento no meio, Joaquim no corredor e, na janela estava uma senhora falante e muito animada. Depois do avião levantar voo, essa senhora começou a conversar sem parar. Ela estava de máscara, mas Manuela não queria conversa mesmo assim. Estavam muito próximas uma da outra. Manuela, muito ansiosa, começou a suar de novo e apertava as mãos para disfarçar a tremedeira. Joaquim procurava acalma-la, sem muito sucesso. A situação só foi piorando, até o momento que a senhora da janela abriu um pacote de batatas fritas, retirou a máscara e começou a comer tranquilamente, sem parar com o falatório. Para Manuela foi a gota d’agua.
- Joaquim, estou me sentindo mal, quero sair daqui.
- Como assim? Você quer saltar do avião em pleno voo?
Manuela estava branca. A senhora da janela, muito solícita...
- A senhora quer que a ajude a ir ao banheiro?
- Não, obrigada! Joaquim, chama alguém agora!
- Por favor, comissária, minha mulher está passando mal!
Enquanto Joaquim tentava chamar a atenção da comissária de bordo, Manuela entrou realmente numa crise de pânico, com todos seus eventos, que para quem já teve sabe como são terríveis. Tremia, respirava rapidamente e não conseguia dizer o que estava sentindo. Até que a levaram para dois metros quadrados de um espaço antes da área da cozinha do avião. A comissária chamou um médico no sistema de som do avião. Seis pessoas se levantaram e um deles tomou a frente do caso. O jovem doutor tentava conversar com Manuela, à distância e com máscara, para não piorar a situação. Depois de alguns minutos tentando acalmá-la, ele pediu a ela para tomar um comprimido de Rivotril, voltar para seu assento e tentar dormir um pouco. Manuela ficou sozinha com Joaquim, e resolveu tomar três comprimidos de uma vez.
- Já estou acostumada com esse remédio, Joaquim. Vou tomar três e tentar dormir um pouco. Mas você fica do lado daquela mulher, eu prefiro o corredor.
E assim foi feito. Voltaram os dois aos seus lugares e rapidamente Manuela dormiu profundamente.
Depois de mais umas 3 horas de voo, o avião chegou ao seu destino e ela continuava dormindo. Joaquim, preocupado, gritava pela comissária de bordo. A senhora da janela, num ímpeto esportivo, pulou os dois passageiros e saiu na frente para a fila que havia se formado no corredor. Todos desembarcaram e Manuela nada de acordar.
Depois de muitas tentativas da tripulação, foi chamada uma ambulância e levaram a passageira adormecida para um hospital.
- Eu não sei o que houve com ela, doutor. Ela tomou três comprimidos de Rivotril e dormiu. Disse Joaquim aflito, mas tentando manter a calma.
- O senhor tem certeza que foram só três? Mesmo assim é muito. Mas ela está bem, dados vitais normais, exames normais. Não entendo por que não acorda. Vamos internar de qualquer forma para observarmos. Ela não pode sair daqui adormecida assim.
Sem que os médicos pudessem explicar, Manuela permaneceu internada nesse estado onírico misterioso por exatamente cinco dias e Joaquim, muito preocupado, permaneceu ao lado dela sem comer ou dormir direito. Até que, no fim do quinto dia, ela acordou se sentindo bem e descansada, como se nada tivesse acontecido.
- Joaquim, o que houve? Já chegamos? Por que estamos num hospital?
- Manuela, você dormiu sete dias seguidos! Que susto você me deu! Agora nada de herança, já perdemos o prazo. Vamos voltar para casa e esquecer essa viagem desastrada.
- Mas.. como assim, Joaquim! A herança...
Manuela recebeu alta do hospital sem entender exatamente o que tinha acontecido. Os dois voltaram direto para o aeroporto como dois sonâmbulos, sem nem chegar a Capitólio, a cidade onde o pote de ouro tinha cansado de esperar por eles.


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Rachel Baccarini

E-mail: rachelbaccarini@hotmail.com

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