Morte e vida Moçambique


Rachel Baccarini


- Tranquilo, mano! Não passa nada. A tempestade já foi. Agora é só o vento a cortar o resto do teu teto de amianto, tamo junto.

- Tamo junto, sim, neste buraco medonho. Mas estás enganado, esta não se trata da minha casa, é minha cova. Nossa cova!

- Pois não! Minha não é, não. O pior já pediu as contas.

- O mundo está acabando em cima da gente, Bota. Não sabes de nada.

- Escuta o ronco da tchopela a teimar na via esburacada, na lonjura, chapiscando no aguaceiro, rromm...splesh...roomm...splesh... Está tudo bem, mano.

- Estás escutando demais. Isso aqui é um silêncio e um breu mortal. Não estou nem sentindo meu corpo! Está tudo muito estranho.

- O pior já pediu as contas, mano. Quando o estrondaço dos diabos cortava os céus clareando a noite e desaguando tudo abaixo, eu achei que por aqui findava os nossos dias folgados. Pois não é? Tu já percebeste como eram folgados aqueles nossos dias?

- Meus dias não eram folgados. Os teus sim eram folgados, também só passavas as horas a encostar no meu trabalho, pra ti sempre a melhor parte. Não me toca mais. Nossos dias vão se findar devagarinho, aqui nesse buraco dos infernos.

- Para de falar desse jeito, Matunha! Nós havemos de sair daqui.

- Podes sonhar quanto queiras. Daqui saimos os dois esticados e mortinhos, com a boca cheia de matope.

-Pois não! Minha boca tá é sentindo o gostinho da chima que minha dona faz. Humm... que delícia! Será que tem um espacinho aqui? Joga isso pra lá...crrarck... levanta essa porta aqui...traarff...ufa!

-Podes me contar o que estás a fazer? Palavreando sem parar.

-Um espacinho para nossa fogueirinha. Agora pe spo enchontrar alguma coisa para assar e mastigar.

-Bota, olha bem, estás a se movimentar mas tudo está como antes. Você não mudou nada de lugar nesse buraco. E eu não sinto fome, nem nada.

- É mesmo, parece um vazio. Eu também não tenho fome. Então acosta aí do teu lado, mano, e vamos prosear e mastigar o tempo enquanto isso. Antes do céu desabar numa enxurrada e ventania de novo.

- Eu tenho uma coisa que preciso te contar sim, Bota. Deve ser por conta dessa situação sem solução que estamos a sofrer aqui, tu e eu nesse buraco. Estou aqui a pensar que talvez seja esta a melhor hora, tem muitos dias que estou a pensar e pensar em ti contar, tu és meu melhor amigo, não tem nada mais sagrado que nossa amizade, não é mesmo? Acho que essa...

– Podes parar com esse lenga lenga e fala logo, camarada! Estou a te escutar.

- Trata-se de uma circunstância delicada, mano, aconteceu sem segundas intenções, eu e dona Zolinda, assim sem pensamento, mas com todo respeito, porque é tua dona, a dona do meu melhor amigo e eu...

- Desembucha, Matunha!

- Tu estavas noutro sítio, a viajar e ela estava assim... necessitada, entendes? Eu sou teu amigo, então só cumpri minha obrigação de amigo e foi rapidinho. Só uma vezinha de nada.

- Tu folgueou com minha dona, então. Se foi por uma necessidade eu entendo, mano. Estás a te preocupar atoa. Isso também aconteceu comigo uma vez.

- Mano, que alívio! Sabes que sou teu melhor amigo.

-E amigo é pra essas coisas mesmo. Sabe aquele domingo que fostes no Chimoio vender a TV que pegamos na casa do prefeito?

- Sim, o que houve?

- Tua irmã estava de passagem aqui na cidade, coitada, estava sozinha, muito necessitada...

- O que estas a dizer? Tivestes coragem de folguear com minha irmã? Vais levar txaia, seu desgraçado! Eu te mato! Vou arrancar teu coração e picar ele todinho! Vou comer ele assado nessa fogueirinha, seu....

- Para com essa gritaria, mano. Tu não vai fazer nada porque aqui não dá nem para esticar o braço, muito menos me matar. Deixa de lero lero. Então és meu melhor amigo ou não?

- Como foi acontecer uma coisa desavisada dessa? Tu não podias ter feito isso!

- Esquece isso, engole essa raiva e acosta aí no teu canto.

- Eu quero é sair dessa voçoroca, quero ver o sol da Beira de novo, Bota. Gostava de trabalhar na minha machamba, sentir o cheiro do mato, mastigar uns cabritos, folgazar com as raparigas na praia. Até que tu apareceste me atentando para a vida de larápio, vida desassossegada e fugitiva.

- Vida muito emocionante, isso sim, mano! Não gostas de money? De comprar umas sapatilhas novas, uns jeans bonitos pra impressionar as raparigas, comer um frango zambeziano com piri-piri na beira da praia. Nós só corremos atrás das coisas boas da vida! Nunca gostastes mesmo de jobar.

- Nós corremos foi pra trás das grades, duas vezes! E quase nos enchavearam de novo dessa vez. E nem conseguioms vender ainda esse ouro que roubamos aquele dia.

- Tu sabes há quanto tempo estamos aqui de gatas nesse buraco? Estou a perceber claridade la fora. Já deve ser a hora do mata-bicho.

- Sei não, a gente perde a noção de tempo aqui dentro. Não tem fome, nem frio, nem dor nenhuma. E olha que esse teto caiu em cima da gente. Ainda estou achando muito estranho.

- Matunha, estou a escutar barulho, te atenta! Vieram nos salvar.

- Estás a ouvir demasiado, mano. É só um silencio que me deixar surdo.

- Fica bem quietinho. É uma voz a chamar a gente. Chegou nossa hora! Daqui nos desacomodamos agorinha. Vejo até uma luzinha lá no fim desse túnel.

- Que túnel? Não, Bota! Não entra aí, não!

- Vamos os dois juntos. Preparado, homem? Só num pode ser a guarda, aí tamo frito!

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- Força, pessoal! Desanimação não vai ajudar, não. Levanta esse muro maior aí. Pode ter alguém embaixo. Emércio, mais corda, mano!

- Boss, mais de 10 dias já são idos desde o ciclone. Não pensas que já estava bem na horinha dessa busca parar? Já abrimos caminho para mais de 500 esperantes debaixo desse lodo e aguaceiro. Todos defuntos há muito.

- Não sou eu que dou a palavra final. Eles mandaram e é o que nós estamos a fazer. Tu pensas que já não estou cansado de desencavar dez, vinte, centenas desses pobres coitados? Estamos a tirar gente debaixo desses escombros, só para serem postos correndinho debaixo da terra, nos tintins, com flores e velas. Nisso não mando eu. Se assim fosse deixava sossegados esses. Vamos aí, força!

- Boss, estamos a conseguir aqui, abrimos um dos lados. Olha só! Mais dois para encher o purgatório, esticados e mortinhos, pelo jeito desde o dia do ciclone. Mas veja só essa caixa de madeira, boss, tá cheinha de ouro!!

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15 de Março de 2019, o ciclone Idai atingiu a costa de Moçambique, um dos países mais pobres do mundo, matando mais de 600 pessoas. Precisamente Beira foi o local mais atingido e 90% da cidade foi praticamente destruída. Ventos de mais de 170km/h arrasaram casas e provocaram alagamentos. Os 500.000 habitantes ficaram sem água e energia elétrica por semanas e milhares de pessoas ficaram desabrigadas. Epidemias de cólera e malária se sucederam ao ciclone. Ainda hoje a cidade não se recuperou dos estragos.

Tchopela= Veiculo de 3 rodas a motor, aberto. Tipo tuc-tuc usado na India.
Matope= Lodo, barro.
Chima= Comida típica feita de farinha.
Tchaia= Porrada.
Machamba= Plantação
Jobar= Trabalhar(job)
Mata-bicho= Café da manhã


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Rachel Baccarini

E-mail: rachelbaccarini@hotmail.com

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