Histórias na Varanda


Rachel Baccarini

Naquele dia, ela quase acordou. Mas não, continuava num estado meio onírico apesar de estar com os olhos abertos. Os mesmos olhos negros, pequenos e profundos que eu conhecia tão bem agora estavam vazios, olhando para o nada. Ela se levantou ajeitando os cabelos grisalhos em um coque na nuca e puxando a camisola branca de linho para baixo. Calçou as pantufas que estavam no chão perto da cama e foi ao banheiro como se não tivesse me visto na porta do quarto. Quando voltou ela disse animada como uma criança:
- Bom dia, Sofia! Hoje é dia de nadar no lago! Vai buscar seu maiô.
Sofia era sua irmã mais velha, que havia morrido há 10 anos atrás.
Eu tentava encontrar alguma coisa familiar no rosto de cera da minha mãe, mas não havia sentimento algum. Eu sabia que ela estava muito longe naquele momento. Ela atravessou o corredor, como sonambula, e chegou na cozinha, onde sempre tomava o café da manhã. Nessa travessia, ficou esquecido o assunto do lago, e outras coisas. Júnia já havia preparado tudo, como sempre: a mesa de madeira maciça posta para duas pessoas, o cheiro de pão feito em casa, o enorme bule de café no fogão. Ao menos ali transbordava calor humano e harmonia.
Vendo-a sentada ali, tão frágil e ausente, tomando sua vitamina de frutas me deixei tomar por uma espécie de pânico seguido por uma angústia e tristeza profundas. Já tínhamos esperado demais, minha irmã tinha razão. Ela precisava da ajuda de um profissional e de medicação. Peguei o celular para discar para o médico que a vinha acompanhando. Um psiquiatra muito bem recomendado e intencionado, mas talvez muito jovem para realmente entender o que se passava na mente daquela mulher de 85 anos. Regularmente nós a levávamos no consultório dele e na última consulta, seis meses atrás, ele prescreveu um psicotrópico que até agora tínhamos resistido em iniciar. Eu e Clara resolvemos tentar outros tipos de terapia. Encontramos um médico ortomolecular que prescreveu medicamentos alternativos e ao mesmo tempo iniciamos fisioterapia, dieta, longos e lentos passeios ao ar livre e conversas na varanda da casa aos fins de tarde. Tudo isso vinha ajudando bastante. Cada mês uma de nós ficava com ela na casa do lago, a casa construída por meu avô paterno, onde ela e papai viveram toda sua vida e onde nós nascemos. Durante um mês deixávamos nossas vidas, nossos maridos e filhos já crescidos e voltávamos para casa para cuidar de mamãe.
Nesses últimos meses ela tinha estado bem melhor, com muitos momentos de lucidez, reclamando algumas vezes, mas presente na maior parte do tempo. Algumas vezes nós conversávamos como duas mulheres adultas, falávamos sobre filhos e netos e ela lutava para não trocar os nomes. Falávamos sobre receitas e para quem ficaria a Nossa Senhora das Graças que ela tinha no oratório do quarto quando ela morresse. Várias vezes ia até a estufa de orquídeas ao lado da casa e ficava horas cuidando das plantas, podando e aguando as flores e remexendo na terra das forrageiras. Muitas vezes a víamos conversar com elas, mas quem não conversa? Algumas vezes tia Sofia também estava na conversa.
Aqueles eram meses que passavam bem rápido para mim. Eu adorava aquele lugar e aquela casa. Enquanto minha mãe dormia depois do almoço eu lia ou caminhava na trilha em volta do lago, tão familiar e lindo, cercado por arbustos de dracenas. Era como estar de férias da minha vida movimentada na cidade grande. As lembranças da minha infância chegavam em todos os lugares e a qualquer momento. Nós quatro crianças correndo pela casa, o frio e a neblina gelada ao sairmos de manhã cedo para a escola, o cheiro de sol nos travesseiros preparados para o sono da tarde, o gosto do leite queimado com açúcar antes de dormir e as vozes de papai e mamãe brigando quando ele chegava tarde em casa. Principalmente, me vinha sempre o rosto da minha mãe jovem e linda, o jeito dela se movimentar e falar.
Ela era a pedra angular da nossa vida em família, o porto seguro, ela cuidava de nós cinco como se fosse a sua missão na vida, estava sempre presente e poucas vezes perdia a calma. Era geralmente nas discussões com papai a noite quando a percebíamos transtornada, as vezes chorava baixinho, mas no final ele sempre dava um jeito. Os meninos menores dormiam no quarto ao lado sem se darem conta. Mas eu e Clara muitas vezes não conseguíamos dormir imaginando papai saindo de casa e de nossas vidas para sempre.
As brigas foram diminuindo com o tempo, o casamento entrou em modo automático, nós crescemos, saímos de casa e lhes demos netos. Minha mãe continuava sempre presente nas nossas vidas em todas ocasiões. Tinha o mesmo rosto suave e calmo, onde ainda se via resquícios de uma beleza incomum, e a mesma fortaleza de espírito.
Há pouco mais de um ano tudo mudou. Papai teve uma morte súbita, uma coronária entupida, ou várias, segundo os médicos. Mamãe reagiu bem a princípio. Chorava todas as noites no quarto, perdeu o apetite, mas tudo normal depois do fim de um casamento de mais de 60 anos. Ela conversava e desabafava com a gente, continuou fazendo compras para a casa, cuidando das plantas e até começou um curso de pintura “para distrair a cabeça”, como gostava de falar. Até que ela começou a se esquecer das coisas e repetir as palavras. Deixou de se cuidar, se perdia ao dar uma volta em torno da casa e deixava panelas vazias no fogão acesso. Se desinteressou pela pintura e por tudo. Não perguntava mais sobre os netos e não ia mais à missa aos domingos. Ela “distraiu” demais a cabeça. O médico avisou que era um quadro de demência senil progressiva. Nós sabíamos, mas achávamos que um dia de insanidade total nunca chegaria.
Mas naquela manhã tudo estava diferente, bem pior que qualquer dia. Ela levantou da mesa da cozinha e começou a andar aleatoriamente pela casa, passando as mãos nos móveis, apoiando em alguns deles e murmurando baixinho. Até que chegamos na sala. Do nada, olhou bem dentro dos meus olhos e começou a falar alto, agitada, emendando palavras sem nexo. Ela falava sobre pessoas que eu não conhecia, me perguntava onde estava minha avó e como sempre, me pedia para telefonar para tia Sofia. Eu desisti de ligar para o psiquiatra e comecei a prestar atenção no que ela dizia. No meio das suas frases eu fazia perguntas, tentando traze-la de volta para a realidade que lhe restava viver. A princípio era como se nada fizesse sentido, mas aos poucos eu fui notando um padrão de normalidade e no seu rosto transpareciam sentimentos reais de angústia e tristeza.
- Onde está seu pai? Eu preciso falar com ele, vai chama-lo Jô, eu preciso falar com ele!
- Mamãe, calma. Por favor, papai não está mais aqui.
- Onde ele está? Eu preciso falar com ele. Faz tanto tempo... Eu não contei para ele, eu não pude falar, não pude, mas agora ele precisa saber.
- Por favor, olha vamos dar uma volta até a estufa, quer?
- Não, eu quero falar com seu pai, mas não sei onde ele está. Ele está vivo, não está?
- Mamãe, papai morreu há um ano! Mas você está aqui, na sua casa, comigo, Júnia e Clara. João e Matheus veem te visitar sempre. E também seus netos! Olha, vamos fazer um almoço no domingo para todos. Que tal?
- Seria bom um almoço, sim. Mas preciso falar com seu pai primeiro. Eu tenho muito a conversar com ele. Nós precisamos acha-lo, Jô!
Ela estava agitada, esfregava as mãos uma na outra e andava de um lado para o outro olhando pela janela como se ele pudesse aparecer a qualquer momento. Achei melhor concordar com ela e prometi que iria procura-lo. Ela então continuou falando, mais devagar, mais calma e fomos caminhando até a varanda onde sentou-se virada para o sol da manhã. Falava sobre o passado como se tivesse acontecido ontem, sem tempo para saudades e feliz por estar se lembrando de tudo.
- Eu amava seu pai, sempre amei, nós nos conhecemos num baile de carnaval. Foi amor à primeira vista. Sua avó adorava contar essa estória para todo mundo. Como ele chegou para ela e pediu para me namorar. Ela riu dele, disse que eu era muito nova. Mas eu já tinha 18 anos. Nós começamos a namorar mesmo assim, escondido. Eu saia do colégio mais cedo para encontrar com ele. Eu amava o seu pai, Jô. Ele foi o amor da minha vida e eu preciso falar com ele agora.
Não era essa a estória que eu conhecia, mas dessa vez não a interrompi. Estava ficando claro para mim que os momentos de lucidez se misturavam com fantasias. Mas pelo menos ela parecia tranquila.
- Por mais de um ano nós vivemos nosso amor adolescente, encontrando atrás dos muros do campo de futebol, sob as mangueiras na trilha para o Rio Paraguai e algumas vezes na casa dele quando seus pais estavam fora. Até que um dia uma vizinha de minha mãe nos viu juntos e tudo se transformou num pesadelo em casa. Brigas, discussões, meu pai culpava minha mãe pelo que aconteceu. Eu sempre fui muito bonita quando era jovem. Meu pai gostava de dizer que eu chamava atenção por onde passava. Com o tempo eu percebi que para eles eu era uma espécie de trunfo, uma “prenda”. Sem eu saber, estava sendo arranjado um casamento com um “bom partido” de Corumbá, e já havia até um pretendente, o simpático advogado filho do engenheiro italiano da cidade. Assim já estava determinado. Agora, mais rápido que nunca eu devia conhecer Leopoldo, e se tudo desse certo, marcar o casamento para o próximo ano. E assim foi, o conheci numa festa de família e nós começamos a conversar e sair juntos. Ele era mesmo muito simpático, me encantou com sua maneira fácil de falar, com cartõezinhos deixados dentro dos meus cadernos de escola e com seu jeito imperturbável de dono do mundo. Mas Martinho não saia da minha cabeça. Só o que eu queria era estar de novo com ele.
Enquanto ela ia falando pensei de início que ela estava delirando de novo, que sua mente criava fantasias e embaralhava os fatos. Leopoldo era meu pai, pai de Clara, João e Mateus. Aquele que havia sofrido um ataque cardíaco fatal há 1 ano atrás. Aquela casa onde estávamos havia sido construída pelo pai dele. Ele era o homem alto, magro e narigudo que estava nos vários porta-retratos espalhados pela casa. Quem era Martinho? Acho que ela percebeu minha reação e interrompeu a conversa naquele momento.
- Jô, pode buscar uma xícara de chá, por favor? E traga aquele meu chapéu de sol pendurado na porta do meu quarto também.
Eu fiz o que ela me pediu e quando voltei a encontrei cochilando na poltrona de vime com a cabeça apoiada na sua almofada de crochê preferida.
Passamos o restante do dia cada uma no seu canto da casa. Eu a vigiava discretamente, de longe, enquanto ela cuidava das plantas na estufa ou fazia suas pequenas arrumações pela casa.
No dia seguinte ela acordou como se nada tivesse acontecido, bem-humorada e com momentos mais frequentes de lucidez que nos dias anteriores, mas negava qualquer conversa que tivéssemos tido. Ela desviava o assunto para as coisas da casa, da família, como Júnia estava ficando velha, o quarto de hospedes estava precisando de reforma e que estranho o namorado da minha filha... Parecia que não se lembrava mesmo de nada, ou então, lá no fundo da sua mente, as barreiras inconscientes que restavam haviam se levantado de novo contra o mundo aqui de fora.
Mas eu decidi insistir um pouco. Percebi que depois da nossa conversa do dia anterior ela estava mais leve, se movimentando melhor e com um sorriso mais tranquilo. De alguma forma parecia estar mais conectada com o mundo que a rodeava, pediu a Júnia para fazer almôndegas no almoço, telefonou para sua amiga Margarida para pedir uma receita de bolo de abóbora e arrumou as gavetas da grande cômoda vitoriana da sala de jantar. Às 4h da tarde caminhei devagar com ela até a varanda, trouxe duas grandes xícaras de chá e comecei a falar de qualquer coisa sem importância. Ela encostou-se na poltrona com as suas mãos em concha segurando a xícara quente e começou a falar de novo.
- Nosso casamento aconteceu um ano depois na igreja Nossa Senhora da Candelária. Foi só no religioso, mas estava tão lindo! Meus pais estavam felizes e Leopoldo mais ainda. Eu também estava, de certa forma. Eu gostava do carinho e atenção que ele me dava, me sentia segura, sabia que enfim eu teria minha família e nunca mais iria passar necessidades. Mas eu estava suja desde o princípio, Jô. Meu vestido branco de noiva não disfarçava minha culpa. Nunca deixei de encontrar Martinho até quando você nasceu. Eu enganei Leopoldo, por muito tempo. Mas eu amava outro homem, será que você entende?
Pela primeira vez, a figura materna idealizada ia se transformando bem na minha frente. Uma outra pessoa, desconhecida para mim e talvez até para ela mesma, ia surgindo à medida que ela falava. Seus lábios tremiam e algumas lágrimas começavam a descer pelo seu rosto. Mas ela continuava calma e parecia consciente do que estava falando.
Filhas não imaginam, ou não conseguem admitir, que suas mães são mulheres como elas mesmas, que tem os mesmos desejos, mesmas dúvidas, passam por dificuldades e problemas bem parecidos dos nossos. É difícil explicar essa cegueira dos filhos em relação aos pais. Talvez seja essa necessidade de o novo dizer para o velho: “...eu sou feito de outro estofo! Sou diferente e sem nenhuma conexão com o que já passou”. Que engano! Os fios de que é tecida a teia da nossa vida são exatamente os mesmos que teceram as vidas dos nossos pais, e dos pais dos nossos pais. Muda apenas a moldura e o resultado final. De qualquer forma, ver minha mãe como uma pessoa foi um pouco assustador e muito revelador. E ela continuou...
- O que eu sentia por seu pai era mais profundo e ele sentia o mesmo por mim. Nós sabíamos que aquilo duraria para sempre. Não conseguimos nos separar. Ele ficou muito decepcionado e furioso quando soube que eu iria me casar, se afastou de mim por alguns dias, mas voltamos a nos ver. Continuamos nos escondendo, procurando locais onde pudéssemos nos encontrar em segurança. No dia do meu casamento com Leopoldo ele sumiu da cidade e só voltou duas semanas depois. E a roda do destino continuou se movimentando e nos unindo apesar de tudo. Nós tomávamos mais cuidado do que antes. Geralmente nos encontrávamos num antigo caramanchão na beira do rio, um lugar bastante isolado. Eu pegava a bicicleta e percorria 15 km até lá depois que Leopoldo saia para trabalhar. Assim foi, até que um ano depois você nasceu.
- Mamãe, o que você está dizendo? Você enganou papai todo esse tempo depois do casamento? Vocês estavam recém-casados! Eu não entendo. Se você não o amava, por que se casou com ele?
Eu perdi o controle por poucos segundos, o suficiente para dizer essas últimas palavras carregadas de censura que acabaram interrompendo nossa conversa aquela tarde. No dia seguinte, o pensamento delirante da minha mãe retornou com toda força e ela esteve fora do ar e confusa. Andava pela casa murmurando, não quis comer ou conversar, passava por mim e por Júnia como se não estivéssemos ali. Por duas vezes perguntou quem eu era, e essa é sempre a parte mais difícil... quando a pessoa que te trouxe ao mundo e que mais te ama não te reconhece. Eu me culpava por ela estar assim. Telefonei para Clara e por mais de uma hora conversamos. Contei para ela o que vinha acontecendo nas minhas conversas com mamãe. Ela não acreditou totalmente, disse que talvez tudo não passasse de fantasia, que não devia me preocupar. Mas eu sabia que era real.
Depois de dois dias mamãe começou a melhorar, a voltar do seu delírio e começamos a conversar de novo. Dessa vez, por mais surpreendente e doloroso fosse o que eu escutava, tentava manter um certo distanciamento e autocontrole para não a assustar de novo.
Nossas conversas sobre seu passado continuaram durante todo aquele mês, geralmente nos finais de tarde, sentadas nas poltronas de vime da varanda, ela pedia um chá de erva-cidreira e começava a falar. Não como fala uma pessoa adulta normal, pensando sobre o que se fala, medindo as palavras para não se expor demais, se preservando de julgamentos e censuras. Ela falava com a inocência de uma criança que nunca colocou a mão no fogo ou que nunca levou o primeiro tombo. Ela falava como uma velha mulher que não tinha mais nada a perder nem a esconder. As lembranças vinham aos borbotões e não eram lineares no tempo.
- A fazenda onde eu nasci era linda, minha filha. Uma fazenda de café no interior do Mato Grosso, extensas plantações, muitas árvores e pássaros, havia um riacho passando atrás da casa grande e um gramado enorme em frente da casa onde eles colocavam o café para secar. Não era da nossa família, meu pai trabalhava colhendo café e fazia também o transporte. Eles eram ricos, nós éramos pobres, mas pelo menos meu pai tinha trabalho ali. Quando aconteceu a falência dos donos, nós tivemos que mudar de lá. Nós éramos 7 irmãos, sete bocas para alimentar. Meus pais se desesperaram, eles não tinham como sobreviver com 7 filhos, ficaram sem casa e sem trabalho. Foi assim que minha mãe decidiu que eu deveria ficar com a dona da fazenda vizinha. Dois anos depois fui morar na casa da cozinheira da fazenda, dona Lilica, e com 16 anos me mandaram para a família da sua avó Julieta, que finalmente me adotou legalmente. Você conhece essa estória.
Sim, eu conhecia essa estória desde criança, de como ela foi adotada. Sempre contada por vovó, mas nunca pela minha mãe. Enquanto ela falava eu observava a expressão de sofrimento no seu rosto e isso era novo para mim. Nunca essa estória tinha vindo carregada de tanto sentimento, era sempre como se fosse alguma coisa inócua, que acabou sendo para o bem de minha mãe. Na verdade, foi sempre a versão da minha avó que eu escutava. Da minha mãe sempre foi o silencio e um sorriso querendo mostrar indiferença.
-Sua avó me criou como uma filha, você foi sua primeira neta e ela te amava muito, disso você sabe. O que nunca te contei é dá minha dor ao separar dos meus pais e irmãos. E de como era minha vida antes de ir para a casa de sua avó Julieta.
- Mamãe, você não precisa relembrar coisas tristes. Que tal a gente caminhar um pouco até o lago? Ou podemos fazer aquele bolo que você gosta.
- Não, eu quero falar! Ela disse irritada, impaciente, elevando o tom de voz. Deixei que continuasse.
- Não sei quando tudo vai se embaralhar na minha cabeça de novo. E quando isso acontece é como se eu fizesse parte de um filme da vida de uma outra pessoa. Eu preciso te falar do filme da minha vida enquanto eu lembro, entende?
Eu fiquei calada e assenti com a cabeça olhando para as pequenas manchas marrons e as veias salientes no dorso das suas mãos. Comecei a me sentir desconfortável. Será que eu queria realmente saber mais sobre a vida daquela pessoa que era minha mãe?
- Porque eu, Jô? Por que eu fui rejeitada pela minha mãe? Depois eu soube que fui só a primeira, os outros se espalharam por Mato Grosso e São Paulo. Nenhuma criança deveria passar por isso, eu só tinha 6 anos. Queria estar com minha família, sentar no colo do meu pai quando ele chegava do trabalho e escutar seu ronco à noite, dormir aconchegada com meus irmãos na cama grande do quarto ao lado, tomar a sopa quente de feijão com macarrão nas noites frias da fazenda. De repente minha vida mudou, eu chorava sozinha no quarto da casa fria da dona Lilica todas as noites, deitada no colchão fino que ela arrumava para mim no chão.
- Deve ter sido difícil, mamãe. Mas pense na sua vida depois que foi adotada pela vovó. E depois, você teve seu casamento, papai era um bom homem e foi um bom companheiro. Nada lhe faltou. E agora, tantos netos sempre em volta de você. São coisas para se agradecer, não é?
- Sim, é claro. E eu agradeço a Deus ter vocês todos perto de mim. Por toda minha vida eu tentei voltar meu pensamento para as coisas boas, a face luminosa da vida. Mas sempre o que fica para trás, o lado escuro da nossa história, é ele que fica como uma sombra, alimentando pesadelos a noite e reações inconscientes de dia. O que a gente não traz para a luz do dia dorme como um monstro à espreita dentro do armário, minha filha.
Poucas vezes tinha visto minha mãe falar daquele jeito, com uma segurança tão grande que calou qualquer tentativa minha de amenizar o assunto.
- Desde os 8 anos comecei a fazer todo tipo de trabalho na casa da dona Lilica. Eu ajudava na cozinha, trazia lenha para o fogão, lavava os banheiros e cuidava das galinhas. As duas filhas da dona Lilica eram maiores e todos os dias iam para escola. Pouco falavam comigo. Com o trabalho foi fácil me acostumar. O difícil foi me acostumar a solidão, a falta de outras crianças por perto, a falta de um beijo antes de dormir. Dona Lilica me tratava bem, mas como uma empregada, como se eu fosse uma adulta. Seu marido, esse era distante e irritadiço, não parava em casa e chegava à noite cheirando a álcool. Quando fiz 10 anos me colocaram na escola. Terminei o primeiro grau com dificuldade porque além do estudo tinha todo o trabalho de casa. Aos 14 anos eu já tinha me transformado numa moça bonita e triste. Um dia, pela primeira vez, seu João, o marido da dona Lilica me olhou diferente. Daí para frente, minha vida foi um inferno até que sua avó me adotou. Ele passava do meu lado, bem perto esfregando o braço no meu corpo, olhava para minhas pernas enquanto eu descascava batatas sentada na mesa da cozinha, algumas vezes sorria para mim e piscava o olho.
- Mas mamãe, por que você nunca falou com dona Lilica?
- Isso não é coisa que se fale, filha. Mas eu me desviava sempre, até que um dia ele me pediu para ir com ele até o depósito na cidade buscar uma escada e as telhas do telhado que ele estava consertando. Eu tentei dar uma desculpa qualquer, mas dona Lilica insistiu que ele precisava de ajuda e tive que ir. No caminho ele desviou e fomos parar numa estrada de terra isolada. Ele parou o carro e começou a me abraçar e eu sentia sua boca nojenta apertando a minha e suas mãos por baixo da minha saia. Eu estava apavorada! Num empurrão consegui me soltar e sai do carro correndo. Ele saiu atrás de mim. Dei a volta e entrei pelo outro lado, sentei no banco do motorista e liguei o carro. Nunca tinha dirigido um carro antes, mas arranquei e apertei o acelerador com força sentindo o carro estremecer e deixando para trás seu João envolto numa nuvem de poeira avermelhada. Aquela foi só a primeira tentativa.
Eu não podia acreditar no que estava escutando. Era revoltante! Nunca soube de nada desse tipo. Minha avó pintou toda a estória da vida da minha mãe de cor de rosa e era isso o que nós conhecíamos. Ela sempre foi a princesa e meu pai o príncipe. E “foram felizes para sempre”. Até que crescemos um pouco e percebemos que casamentos não são cotas seguras para felicidade. Mas ela continuou antes que eu pudesse dizer alguma coisa, deixando que a raiva do passado revivesse em cada palavra.
- Eu tive que dar uma explicação esfarrapada para dona Lilica quando cheguei e depois ele deu outra parecida e tão mal-humorada que ela desistiu de perguntar sobre o assunto. Dali em diante eu vivia apavorada, muitas vezes conseguia escapar das investidas dele, outras não. Estava decidida a sair daquela casa, mas não tinha para onde ir. A situação melhorou quando a irmã mais nova da dona Lilica foi morar conosco e passamos a dormir no mesmo quarto. Até que um dia sua avó apareceu por lá para comprar galinhas e ficou acertado que eu iria morar com ela. Foi graças a umas galinhas...
- Você já deu comida para as galinhas hoje, Sofia?
Sua mente dava de novo suas escapadelas e sua voz já estava se apagando. Ela estava cansada e triste. Começava a escurecer e fazia frio na varanda.
- Vamos para dentro, mamãe. Já está muito frio aqui.
Nós duas estávamos abatidas. Ajudei-a a se levantar, ela se apoiou no meu braço e fomos para a cozinha. Naquele momento, ela parecia ter envelhecido mais alguns anos. Eu estava enojada e agradecida por ter crescido numa família saudável e amorosa. Rezei baixinho para que nossos filhos, os filhos de nossos filhos e os filhos dos filhos dos nossos filhos nunca passassem por esse tipo de situação! Mas há tanta podridão nesse mundo...muito mais que nosso estômago pode aguentar.
No domingo aconteceu o almoço com toda a família reunida: os 4 filhos, genros e noras, 7 netos, namorados e namoradas, cachorros... Vieram todos de São Paulo e Cuiabá, arrumamos uma mesa grande no gramado ao lado da estufa e a comida foi a preferida dela, rabada com agrião. Mamãe estava alegre, atenta a tudo, trocando os nomes dos netos como sempre, mas passou a maior parte do dia lúcida, conversando e rindo. O dia passou rápido e na manhã seguinte todos voltaram para suas casas, exceto Clara. Ela estava preocupada com tudo que contei ao telefone e resolveu ficar mais uns dias.
No dia seguinte à tarde, mamãe amanheceu bem-disposta e com fome. Poucas vezes durante o dia ela mostrou algum sinal de ausência ou confusão. Passamos o dia conversando com Clara sobre o almoço do dia anterior e, como fazíamos sempre, à tarde fomos para a varanda tomar chá, dessa vez mamãe, Clara e eu.
- Vocês duas eram tão lindas quando nasceram! Não, não eram como esses bebês enrugados e feios, tinham a cara cheinha e sorriam muito. Quando você nasceu Jô, eu já não via seu pai há mais de 2 meses. Ele foi embora para sempre.
- Mamãe, você está se confundindo, papai esteve sempre aqui com você.
Disse aquilo devagar e sem saber se devia, temia o que ela diria em seguida, já estava um pouco desconfiada depois da nossa última conversa sobre o assunto.
- Você ainda não entendeu, Jô? Seu pai de verdade é Martinho, não Leopoldo.
Mas desconfiar é uma coisa, ouvi-la dizer aquilo foi como um murro no estômago, preferia ter continuado na dúvida. Senti o olhar de Clara sobre mim. Eu não sabia o que dizer, e ela tampouco. Mas não precisamos dizer nada, mamãe continuou falando tranquilamente, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Só tivemos certeza de que aquilo era real e não um delírio porque tudo se encaixava perfeitamente à medida que ela falava: as datas, comentários que escutamos de vovó (então ela sabia!), porque eu só parecia com minha mãe e não tinha nada do meu pai.
- Quando ele desapareceu sem dizer nada eu entrei numa depressão que perdurou por 3 meses depois que você nasceu. Sua avó veio passar esse período aqui para me ajudar e graças a ela fui me recuperando aos poucos e tive com quem conversar sobre Martinho.
Assim que engravidei soube que ele era o pai porque foi exatamente numa das semanas quando Leopoldo viajou a trabalho para o Rio. Não contei nada para ele e nem para Martinho, esse nunca soube que tinha uma filha. Martinho ficou desesperado quando engravidei e me perguntou várias vezes de quem era a criança. Eu sempre disse que era de Leopoldo. Daí para frente, nós começamos a brigar por qualquer coisa. Ele não se conformava, ainda tinha a esperança que um dia eu iria abandonar Leopoldo e ir embora para longe dali com ele. Muitas vezes, depois de brigas e acusações mútuas, nos chorávamos juntos, abraçados. Eu tinha certeza que se eu dissesse para ele que você era sua filha ele iria querer contar tudo para Leopoldo e ficar com você. Por isso eu menti para os dois, entende?
Não, eu não entendia nada, como ela nunca nos contou nada? Quer dizer que não conheci meu pai biológico e isso me parecia muito cruel naquele momento.
- Quando eu estava no sexto mês de gravidez seu pai desapareceu da minha vida para sempre. Nós chegamos a conversar mais friamente sobre a situação e concordamos que essa seria a melhor solução. Eu nunca soube para onde ele foi.
- Filha, me perdoa! Ela começou a ficar muito nervosa. Levantou-se com dificuldade e continuou a falar caminhando na minha direção.
- Se eu contasse, teria destruído minha vida e de Leopoldo, de todos nós. Nunca quis enganar seu pai, eu o amava. Me deixei levar por alguma coisa que parecia maior que minha vontade e tive que esconder isso toda minha vida. Sei que é difícil para você, mas pela primeira vez me sinto livre desse fardo. Espero que Leopoldo também me perdoe, esteja onde estiver.
Pela primeira vez, Clara interferiu na conversa apoiando mamãe pelo braço e sentando-a de novo na poltrona.
- Mamãe, não se desespere, vai ficar tudo bem. Jô te perdoa, sim, e papai também. Agora que você falou, vamos mudar de conversa? Vamos esquecer isso, por favor.
- Está tudo bem, mamãe! Não se preocupe.
Eu queria tranquiliza-la, mas por dentro me sentia enganada e confusa.
- Eu tenho muito mais a te agradecer do que perdoar, te amo! Olha, vou trazer mais chá para a gente, tá bom? Fica sentada, está ficando frio.
Levantei-me, dei um beijo na sua testa e a cobri. Ela se aconchegou mais calma na poltrona e se enrolou na manta, estava aliviada. Clara entrou comigo na casa, perplexa. Na cozinha trocamos algumas palavras enquanto esperávamos a água ferver. Mais tarde teríamos tempo para conversar e digerir tudo aquilo. Colocamos as xícaras numa bandeja e voltamos para a varanda.
Mamãe continuava recostada na poltrona de vime, dormindo com a cabeça apoiada na sua almofada de crochê preferida. Ninguém iria acorda-la dessa vez.



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Rachel Baccarini

E-mail: rachelbaccarini@hotmail.com

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