Casamento


Rachel Baccarini





Senti uma dor no coração quando vi outra mensagem daquelas para ele. Era a segunda naquela semana, escrita em tinta vermelha e perfumada. Meu Deus! Nós só tínhamos um ano de casados e aquele sem vergonha já tinha uma amante?

Antes de nos casarmos, um dos seus amigos bem que tentou me avisar, mas eu achei que era ciúmes. Carlos sempre teve uma quedinha por mim, mas era de Haroldo que eu gostava, sempre foi. Haroldo era charmoso, atraente demais. O casamento foi na igreja. Festa para 200 pessoas, lua de mel em Campos do Jordão e muitas promessas de amor e de fidelidade.

Eu vou matar aquele desgraçado!

Resolvi esperar um pouco, talvez fosse precipitação minha. Afinal não dava para ter certeza só por aquelas mensagens. Haroldo continuava carinhoso como sempre, beijinhos na nuca, filminho com pipoca domingo à tarde, noites quentes.

Mas, no dia seguinte, encontrei outra mensagem no bolso do seu paletó e essa era descarada e suja. Assinado: “Com amor, Mariana”. Merda! Só podia ser a colega dele, aquela que sempre nos convidava para sua casa de praia. Agora tenho que matar o cafajeste. E já sabia como. Tinha lido num dos livros de medicina dele. Uma dose alta de digoxina pode causar um grave distúrbio cardíaco e levar ao óbito. Óbito era uma palavra bonita demais para aquele canalha, ele ia morrer mesmo como um cachorro de rua, sem ninguém saber como, talvez não precisasse nem de certidão de óbito, ou enterro.

Eu estava decidida e nada me fez mudar de ideia na semana seguinte. Peguei emprestado alguns comprimidos de digoxina na casa do meu pai. Ele tinha insuficiência cardíaca e fazia uso diário. Era questão de esperar o momento certo, seria numa sexta-feira à noite. Haroldo chegava mais cedo em casa e a primeira coisa que fazia era abrir uma cerveja. Fácil, dissolver os comprimidos e colocar dentro do copo. Quando ele estrebuchasse no chão, ninguém escutaria porque eu teria fechado as janelas e iria tomar um banho de banheira. Lógico que não chamaria a ambulância.

Esse era o plano. Mas as sextas-feiras passaram bem rápido e aquele momento não chegou. Nem mesmo eu sei como cheguei nessa situação. Dispenso a crítica! Sentada aqui no enterro dele, nós dois cercados de filhos e netos amorosos, ainda me pergunto, como foi acontecer? Pelo menos sou eu a sobrevivente a esses sessenta anos de casamento, 3 partos normais, fraldas e papinhas, viagens de férias, reuniões de pais na escola, festas de 15 anos, casamentos dos filhos, bodas de ouro. Se vocês querem saber, até que não foi ruim.

Eu nunca mais soube de nenhum caso de Haroldo. E Mariana, essa se foi. Desde aquela semana em 1968, ela nunca mais nos convidou para sua casa de praia e parou de enviar mensagens para ele. Meses depois ficamos sabendo que ela havia tido um sério problema cardíaco e não resistiu. É a vida.











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Rachel Baccarini

E-mail: rachelbaccarini@hotmail.com

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