Christina Amorozo
Gina estava naquela fase em que a criança começa a aprender a ler, e quer ler tudo que passa pela sua frente. Caminhava de mão dada com a mãe por uma rua do bairro do Caju, no Rio, quando viu, do outro lado, três palavras pintadas em letras azuis sobre o muro de um grande terreno baldio. Parou de repente, puxando a mãe para a retranca. O que foi, Gina? Eu quero ler o que tá escrito no muro. A mãe suspirou, impaciente. Gina foi percorrendo devagar as letras com os olhos. A primeira era bem sua conhecida, a inicial do seu nome, depois vinha E e N. G – E – N – ... Nesse ponto, a mãe a interrompeu, Vamos, menina, eu tô com pressa, preciso fazer o almoço. E a puxou para diante. Gina, a reboque da mãe, ainda torceu o pescoço, na tentativa de continuar a leitura, mas perdeu de vista as palavras, no meio dos carros e passantes. Ficou ruminando sobre o que conseguira ler. Mãe, o que é GEN? Essa palavra não existe, filha. Mas tava escrito no muro. Decerto cê leu errado. Não li, não. Então, cê não leu ela inteira. Ela considerou essa alternativa. É, podia ser. Havia mais algumas letras antes do fim da palavra. Mãe, cê viu o que tava escrito lá? Não prestei atenção, filha. Chegaram em casa e não se tocou mais no assunto.
Gina não desistira de adivinhar o que vira escrito no muro. Tentava encontrar alguma palavra que começasse com as três letras que conseguiu soletrar. Será que era um bicho? Não conhecia nenhum bicho começando com GEN. Não conhecia nenhuma palavra que começasse assim. Ah, tinha a Geni, a vizinha da frente. Mas era verdade que a palavra no muro não acabava tão rápido, tinha mais letras. Mãe, você conhece palavras que começam com GEN? Ai, menina, vai brincar, não tô com cabeça agora, teu irmão tá chorando. O jeito era aguçar os ouvidos e esperar que alguém falasse alguma coisa começando com GEN.
Um dia, ouviu seus pais procurando um endereço, Achei, taqui, é na rua General Jardim. Gina pensou um pouco. General começava com GEN. Mas o que era general? Seu pai explicou, É um tipo de soldado. E o que faz um soldado? Defende o país. Gina não entendeu, o pai tentou esclarecer como pôde e lhe mostrou a foto de um general. A menina achou o uniforme bonito, mas não gostou da carranca do homem. Por que ele tá bravo? Ele tá sério, tem muita responsabilidade. O quê? O pai desistiu, Mas por que cê tá tão interessada em general, Gina? Porque a palavra que eu tava lendo no muro começava com GEN. O pai achou graça. E por que não terminou de ler? A mamãe tava com pressa e não esperou. Eu te levo lá no fim de semana, pra você terminar de ler, tá? A menina concordou.
Mas a urgência das crianças colidia com o tempo curto dos adultos, o pai sempre ocupado, postergando o combinado para amanhã, hoje não dá, amanhã virava hoje, não dá também, filha prometo semana que vem. Gina cobrava, lembrava a promessa, o pai sempre tinha uma desculpa. Então, numa bela manhã de sol, em que a mãe estava muito ocupada com o bebê e os afazeres domésticos para perceber sua falta, decidiu. Iria até aquele muro para ler o resto da frase. Ela sabia onde ficava, não era muito longe de sua casa.
Postou-se na frente do muro. Eram três grupos de letras separados. O primeiro, já sabia em parte, GEN, depois vinha um T e um I. Então não era general. E depois vinha L. Um rapaz se aproximou, Oi, menininha, você já sabe ler? Estou aprendendo, respondeu Gina, sem tirar os olhos das letras. Quer que eu leia pra você? O não saiu com violência. Tá bom, tá bom. E esperou. Gina continuou decifrando as letras que faltavam da primeira palavra, E – Z – A. Tentou juntar tudo em voz alta, mas esqueceu do T. O rapaz sorriu. Tenta de novo, não ficou certo. A menina olhou para ele aborrecida, e tentou novamente. Agora, sim, parabéns, você leu certinho. Gina não sabia o significado da palavra, mas não queria perguntar ao rapaz. Ficou repetindo baixinho, para gravar na memória e perguntar em casa. O rapaz percebeu a confusão da garota e disse, Gentileza é uma fada, você sabia? Gina olhou para ele. O rapaz tinha um sorriso simpático e a voz agradável, até parecia um pouco com o tio Marcos. A Fada Gentileza é muito bonita, assim como você. Ela tem uma varinha mágica, com uma estrela na ponta. É claro, falou Gina, toda fada tem. Mas essa varinha é especial. Quando a Gentileza toca alguém com ela, essa pessoa fica leve e feliz, tão leve e feliz que começa a voar. Voar? É, voar. Voar de verdade, que nem passarinho? É. Gina ficou na dúvida. Eu posso te levar pra conhecer a Fada. Onde ela mora? Aqui perto. A menina se lembrou, É mentira, minha mãe falou que fada só tem em livro de história. O rapaz fez uma cara de ofendido. Eu não sou mentiroso, a Fada Gentileza existe de verdade, você não acabou de ler o nome dela no muro? A menina ponderou, isso era. É, podia ser. Ela pode me fazer voar? Claro, é só ela mexer a varinha mágica. Gina se imaginou voando, como nos sonhos que às vezes sonhava, e era uma sensação deliciosa, essa de voar. Então, vamos? Gina hesitou, a mãe sempre dizia para não ir com estranhos. O rapaz percebeu. A gente vai num instante, depois você pode voltar voando pra sua casa, sua mãe vai ficar admirada. E lhe estendeu a mão. A menina nunca mais foi vista.
As palavras no muro, leitura inconclusa: “Gentileza gera gentileza”. Assim dizia o Profeta.
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