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Christina Amorozo

Como quando eu era criança. Sento-me bem ereta no sofá, as pernas juntas e as mãos pousadas no colo. À espera. Era assim que começava. Ficava imóvel e então, quando a cabeça se esvaziava e os olhos se desfocavam e iam se fechando, sentia uma presença pousar a meu lado e ouvia o farfalhar de panos. Da primeira vez fiquei assustada, virei-me rápido, e não havia ninguém. Depois aprendi que precisava olhar com o canto do olho, então podia vê-la e conversar com ela com a boca fechada. Durante uma parte da minha infância, ela foi minha melhor amiga. Uma vez contei isso para a Marcinha, ela empinou o narizinho e disse, Mamãe, fadas não existem. E quem disse que era uma fada?
Já faz alguns minutos que a hora da visita começou. Há bastante movimento no salão e nos jardins, as conversas engordam um burburinho indistinto, os assuntos de sempre, palavras batidas e repisadas, que servem apenas para dizer, veja bem: estou aqui com você. Gerações se abraçam, avós entusiasmados amassam bebês em seus braços e eles retribuem com mordidas e puxões em suas bochechas flácidas, soltam gritinhos de furar o tímpano e encharcam seus ombros com baba gosmenta. Quando não fazem coisa pior. Graças a Deus, por isso eu nunca mais vou ter que passar.
Será que hoje ela vem? Eu nunca sei, a Marcinha é tão ocupada, sua carreira exige demais, não tem fim de semana, não tem férias, pobrezinha. Claro que ela deve ganhar muito dinheiro, percebe-se pelas roupas e pelo carro. Veio no meu aniversário e trouxe um bolo enorme, mas não esperou para apagar as velinhas, tinha um compromisso urgente. Dou uma risadinha, sem querer. Apagar as ve-li-nhas, não as velhinhas. Era tanta vela, que precisei de uns três ou quatro soprões para apagar todas.
Os parentes de outros internos me veem sozinha e se aproximam, Me cumprimentam, perguntam sobre minha saúde. Falam naquele tom que se usa com crianças muito pequenas ou deficientes mentais. Abro meu sorriso mais cativante e respondo no mesmo tom, demorando-me nos detalhes mórbidos ou enfadonhos sobre minha condição física. Alguns me perguntam da Marcinha, Minha filha está no Japão, sabe, ela viaja muito a trabalho. Eles fingem que acreditam, eu finjo que não sei que eles fingem. Despedem-se de mim com beijinhos e se afastam balançando as cabeças e fazendo comentários em voz baixa sobre a filha negligente.
Daqui a pouco, tudo ficará silencioso novamente. Mais um fim de semana sem visita. Não importa. Até que me diverti.

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Christina Amorozo

E-mail: mcm.amorozo@gmail.com

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