Sobre não ter filhos


Cris Netto


Há algum tempo li uma reportagem no Jornal Zero Hora que me causou um desconforto muito grande. Uma reportagem especial sobre não ter filhos, mas não sobre o direito de escolha e sim, sobre ser contrário à concepção. Respeito as famílias que escolhem, conscientemente, não ter filhos. Respeito os casais que naturalmente não podem conceber e não tentam outros meios para se tornarem pais. Existem várias configurações familiares sem filhos. Todas legítimas. O que eu não entendo e pessoalmente não aceito, é a falta de respeito que algumas pessoas demonstram com as crianças e suas famílias, que também conscientemente, optaram por ter filhos.

Existem muitas crianças em situação de risco, negligenciadas por suas famílias, carentes de recursos e afeto. Esse é um problema sistêmico e global e as soluções para esse mal podem ser várias, mas com certeza a não concepção não é uma delas. Os antinatalistas preocupam-se com o sofrimento do mundo, mas sua postura anti criança causa mais mal ao planeta do que o choro de um bebê.

Toda vez que uma criança é excluída de um ambiente, é rechaçada, ou envergonhada, uma mãe e uma família inteira também sofre. Ao levantar a bandeira do não sofrimento mundial estão criando ilhas de sofrimento por onde passam. Não ter filhos é uma escolha, não gostar de crianças é negar o seu passado, desrespeitar as crianças que foram e ignorar os pais que tiveram.

Criança é vida, é alegria, é futuro. Criança chora não só por birras, mas justamente porque reflete as sombras de pais que não se permitem sentir, chorar, sofrer. Há toda uma geração nova que recebe muitos rótulos, de geração Y, X ou Z, todos eles baseados em teorias que tentam justificar a doença do século. E essa doença não é a malária, nem a AIDS, nem a sífilis. O mal do século é a desumanização em massa. Nas últimas décadas tivemos um progresso expressivo na tecnologia e um retrocesso monstruoso nas relações humanas. Estamos mais ágeis, mais produtivos e menos tolerantes.

Quando temos filhos, voltamos justamente a ser crianças. Redescobrimos o encantamento pelo simples, o amor ao próximo. Ao ensinar, reaprendemos. Ao negar a infância, abortamos a chance de nos reencontrarmos com nossas sombras e vivermos em paz com nosso passado.

Não ter filhos é uma escolha, sem dúvida. Mas criar movimentos contrários à infância e à adolescência não é uma opção, é uma violência ao passado e um desrespeito à humanidade.

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Cris Netto

E-mail: cristiane.snetto@gmail.com

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