Christina Amorozo
Em meados da década de 1980, trabalhei por um período no Museu Goeldi, em Belém. A área que escolhemos para pesquisar o conhecimento dos caboclos sobre plantas medicinais situava-se no Município de Barcarena, às margens da Baía de Marajó. Era um lugar muito bonito, com matas bordejando praias de areia fronteiriças a um mundo de água que, embora fosse doce, já prenunciava a presença mais distante do mar, com pulsos diários de marés.
Escolhemos como um dos locais de estudo a Vila de Itupanema, um minúsculo aglomerado de casas em torno de um largo e uma igreja, prolongado ao longo da margem da baía por sítios de moradores. Sítios são o que se chama em literatura etnobiológica de quintais agroflorestais. Ali, os moradores cultivavam árvores frutíferas nativas e exóticas, de permeio com espécies florestais nativas, plantas medicinais e ervas de tempero ou aromáticas. As herbáceas mais sensíveis plantavam em canteiros suspensos para minimizar o ataque de insetos terrestres, entre outros problemas. Eram locais muito aprazíveis, onde os membros da família passavam as tardes quentes, quando não estavam ocupados na roça ou pescando – ou ainda em atividades extrativas ou de caça. Era um espaço ideal de socialização.
A uma distância facilmente vencida em uma caminhada de uns quinze a vinte minutos, andando pela estrada ao longo da baía, ficava uma outra vila, a Vila Nova do Piry, que também incluímos em nossa pesquisa. Ao contrário de Itupanema, onde os moradores já viviam há tempos, aquele aglomerado de casas tinha apenas cerca de dois anos e era bem diferente do primeiro. Os lotes eram todos iguais e muito menores. Não havia os sítios. Tratava-se de uma população que tinha sido expropriada/expulsa de sua área de vida tradicional e realocada ali. O motivo era a construção do complexo industrial Albrás-Alunorte, para processamento de bauxita a alumina e alumínio. Os moradores tiveram que abandonar seus sítios com tudo que ali cultivavam. Procuraram, no entanto, transplantar o que fosse possível carregar para os pequenos lotes onde agora habitavam. E, é claro, trouxeram também seu rico e complexo conhecimento botânico tradicional que, pelo menos daquela geração, não Pôde ser expropriado.
O acesso a essa até então área de vida de uma população local foi proibido a “pessoas estranhas”, mas vez por outra os habitantes se arriscavam a entrar lá, para colher algum produto de seus antigos sítios.
Durante uma das viagens de coleta de dados para a pesquisa, encontrei, não me lembro mais por que acaso, um funcionário do complexo industrial e ele me convidou para visitar o empreendimento. Convidei então, por minha conta, uma das minhas interlocutoras locais, uma senhora muito versada em plantas, para me acompanhar. Quando o funcionário viu quem estava comigo, ficou bem bravo. O convite não era extensivo aos antigos moradores. Aquilo não era para eles.
Parece que até hoje não é.
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