Christina Amorozo
Maria da Respiração Furada, criatura desalmada,
Morava no ar da Rua da Encruzilhada.
O seu Bento Sebento, seu vizinho de calçada,
Morria de medo da danada
E punha sempre um cachecol
Quando ia esvaziar o urinol.
Maria atacava a qualquer hora da noite
Ou do dia, isso todo mundo sabia.
Punha suas mãos de neblina
Na garganta de quem passasse por aquela esquina,
Senhor ou senhora,
E apertava até a língua sair pra fora.
Mas a maldade da Maria, coitada,
Tinha uma razão de ser:
Quando ainda era viva e bem enturmada,
Morreu de uma traqueostomia
Mal executada.
Maria se sentia só, até que viu um sujeito bonitão,
Flutuando no ar da Rua Sete.
Era o Tenente Croquete, morto na contramão
No campo de aviação.
Sempre que o vento ajudava, para lá se deslocava.
Mas o Tenente indiferente não fazia cortesia.
Não queria compartilhar sua morte
Com nenhuma consorte,
Muito menos a Maria,
Que suspirava de amor e agonia
Pelo buraco da traqueostomia.
Um dia, a Maria se encheu.
Não aguentava mais ser tão esnobada
E projetou uma cilada.
Chegou sorrateira por trás do moço
E calada, apertou seu pescoço
Até esmigalhar o osso.
(Ué, fantasma tem osso?)
A língua saltou pra fora
O ar faltou
E o Tenente sem demora se evaporou.
Maria ficou cansada e voltou para a Encruzilhada
De onde nunca mais se afastou.
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