O Atravessador


Monique Werneck Platt

Não é à toa que carioca não gosta de dia chuvoso. Óbvio - diria qualquer pessoa que nunca morou no Rio - porque não se pode ir à praia. Ledo engodo midiático. É que a Cidade Maravilhosa debaixo de chuva vira uma encrenca. O trânsito para e as ruas enchem d’água. Se for chuva forte, então, nem se fala. Quem mora longe do trabalho (o meu caso enquanto morei lá), pode esquecer horário neste dia. Em alguns pontos da cidade, os inundamentos viraram rotina, principalmente em determinadas épocas do ano.

Um bom exemplo desta triste situação é a região da Lapa, no centro da cidade. Conhecido por seus famosos Arcos, pela boemia e, mais recentemente, pela vida noturna badalada, o bairro, quando chove, vira uma lagoa.

Uma de suas ruas mais conhecidas é a Rua do Lavradio, onde fica o Fórum Trabalhista. Circulei por lá durante mais de dez anos, trabalhando como médica da Justiça do Trabalho. O setor médico ficava em outro prédio, na Avenida Gomes Freire, rua paralela. Eu estacionava o carro no prédio da Rua do Lavradio e seguia a pé até a outra rua. Quando alguém passava mal em um dos prédios da Justiça (além destes havia mais outros dois), chamavam os médicos para atendimento, de modo que eu estava habituada a saídas frequentes de ambulância.

Certa tarde, já quase no fim do expediente, ligaram pedindo atendimento para uma senhora que passara mal ao sair da audiência no prédio da Lavradio. Saí com a colega enfermeira, como de costume. O céu tinha ficado escuro de repente, anunciando que viria chuvarada. A senhora estava nervosa, a pressão tinha subido. Fizemos medicação e decidimos aguardar por meia hora lá mesmo.

Reavaliamos, a pressão da senhora baixou. Mas a espera foi o intervalo perfeito pro temporal desabar.

- A rua encheu, olha só! - comentavam, olhando pelas janelas.

Decidi descer ao térreo pra avaliar a situação. O hall de entrada ficava em patamar mais elevado que a rua. Lá, servidores, advogados e usuários da Justiça se apinhavam admirando a rua que, a esta altura, mais parecia um ribeirão.


Comecei a procurar o celular na bolsa, queria avisar ao marido pra ir arrumando a janta das crianças, que eu não chegaria antes das nove. Ouvi risadas e, na sequência, uma pessoa conhecida me cutucou:

- Olha isso, não perde!

Bem em frente ao prédio se avistava, sobre as águas barrentas, um menino de seus onze, doze anos, vestindo uniforme da escola estadual que havia do outro lado da rua. Ele flutuava sobre uma estrutura grande, de aglomerado, provavelmente retirada da obra que havia no colégio. Nas mãos, tinha um cabo de vassoura, que ia usando como remo, feliz da vida.

Percebendo claramente que era observado, o menino fazia graça, tornara-se um gondoleiro na Nova Veneza.

Logo próximo a mim havia um grupo de advogados que mirava o ônibus da OAB, bem estacionado num local mais elevado do outro lado da rua, perto da tal escola. Certamente pensavam que seria muito melhor esperar a água baixar sentados em bancos confortáveis do que ali, apertados e de pé.

Pois não demorou muito para que o bem-pequeno-empreendedor-gondoleiro identificasse a demanda do mercado. Tratou de parar o barco à nossa frente e oferecer a um dos doutores a travessia, pela bagatela de cinco reais. Um deles aceitou, ao que foi saudado por palmas e muitas gargalhadas.

A travessia transcorreu perfeita, tendo o engravatado chegado ao destino sem respingar o paletó. Outros o seguiram, o negócio prosperou. O menino usava de destreza e cortesia, enquanto faturava seus trocados, dando aula gratuita de atendimento ao cliente.

A cena toda - pessoas, enchente, barco, menino - era muito pitoresca. E de uma riqueza simbólica que, a mim, parecia um legítimo Picasso sem moldura. Diversas impressões me invadiram a alma. Era a intervenção divina mudando, num repente, o curso do dia, era a sobrepujança clara da força da natureza sobre a ação do homem... Lembrei-me, ainda, das fotos do Rio Antigo estampadas nos livros de História, a evidenciar o contraste entre a pompa da Corte portuguesa e a falta de estrutura da capital do Império, na época desprovida de saneamento básico.

O que permaneceu comigo, no entanto, dando o tom daquele dia, foi a alegria do menino, ponto de luz cintilante na tela da tarde cinzenta.

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Monique Werneck Platt

E-mail: monique.platt@trt4.jus.br

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