Monique Werneck Platt
A primeira vez que entrei lá foi de mansinho. Senti um calor confortante no peito acompanhado de uma alegria diferente, que eu nunca havia experimentado antes. Dei uma espiada no colorido do lugar, reparei numas luzinhas cintilantes que me observavam.
Eu era recreadora das crianças da Hematologia. Conhecia cada história e, aos poucos, fui também aprendendo a fazer parte das brincadeiras daquele grupo de pequenos. Eram como uma boa turma de escola, encontravam-se bastante no hospital. Havia, como em toda turma, as duplas inseparáveis, os pequenos desafetos e até as paqueras.
Meus amigos, que estavam fora daquilo, viviam a me advertir que era perigoso, que eu me envolvia demais e que acabaria sofrendo. Eu nunca vi assim. Acho que era por isso que eu era convidada a entrar.
Passei a frequentar o tal lugar. Sempre que eu adentrava o portal, era como se o tempo parasse. Ou melhor, era como se não houvesse tempo. Eram só um relaxamento gostoso e a vontade de ficar.
Um dia, enfim, mergulhei de cabeça. Era festinha de Natal e estávamos todos muito animados. Os brinquedos que levei sumiram da sacola e o som das risadas e dos papeis de embrulho se rasgando fizeram o portal aparecer na hora. Foi intenso. De repente, os pais, as crianças, eu mesma nos unimos num turbilhão de cores vibrantes e serenas. Éramos todos pontinhos brilhantes de um caleidoscópio gigante.
Há os que dizem que estou louca e os que pensam que é uma invenção minha para esconder a tristeza. Mas eu tenho certeza, já vi, já estive lá. Existe sim o Céu das Criancinhas.
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