Monique Werneck Platt
Valdir era o quarto dos seis filhos de Inácia e Rubem. Logo seriam sete, pois Inácia estava grávida do caçula. Moravam no sítio que restou da partilha da Fazenda Nossa Senhora da Piedade, na região de Taboas, interior do Rio de Janeiro, um cadim mais para o lado das Minas Gerais. A grande propriedade, que servira de cenário para os áureos tempos do café no Brasil, naqueles idos de 1950 estava dividida, e de riqueza restavam apenas os recursos naturais. A natureza exuberante reinava por lá, mostrando seus contornos na mata nativa, nos riachos, ribeirões e cachoeiras. Tico-ticos, cotovias e sabiás faziam o coro das manhãs, melodia suave a embalar a vida simples, bem ao gosto da Mãe do Céu que um dia dera nome ao lugar.
Era época de férias escolares e Valdir, no auge dos seus oito anos, estava animado com o retorno de seus irmãos mais velhos. Jorge, Paulino e José tinham ido morar num abrigo em Valença, onde havia escola. Nas férias de julho, retornavam ao sítio, então as brincadeiras ficavam muito melhores. Ele bem que gostaria de conhecer o tal abrigo, mas lhe diziam pra ter paciência, que naquele momento era melhor que aprendesse as coisas com a Ritinha, na casa dela mesmo.
Ritinha era uma moça estudada e fazia as vezes de professora. Era muito amorosa e explicava bem as coisas da escrita e dos problemas da matemática, então, ele aceitava. Precisava ajudar o pai no roçado e a mãe a cuidar dos menores: Antônio e Ana.
Uma tarefa que acabava virando farra pra meninada era sair pra buscar madeira seca na mata, perto do ribeirão. A madeira servia de lenha pro fogão e pra fazer fogueira à noite. No caminho, subiam em árvores, que viravam suas casas, comiam fruta do pé.
Na mata eles se separavam um pouco, cada um pegava o galho que conseguisse carregar. Depois tomavam o caminho de casa, do outro lado do ribeirão. Já estavam todos prontos pra voltar, quando Valdir sentiu uma queimação num dos pés. Gritou, deu um pulo, sentiu queimar o outro pé também. Foi José quem matou a charada:
- Pega, é cobra!!
Era uma jararaca danada. Menino da roça aprende a matar cobra bem cedo. Aproveitaram os galhos e resolveram o caso. Mas, e o irmão, agora, picado?... Ainda estavam longe de casa...
Valdir se lembrou que a mãe dizia que, num caso daqueles, não se devia atravessar o rio, porque quem atravessa o rio assim, morre. Pediu ajuda ao Jorge pra jogar o maior galho por cima do ribeirão. Fizeram uma ponte.
Conseguiram chegar em casa. Seu Rubem mandou o Paulino ir correndo buscar Neca Tudi.
Neca Tudi era um caboclo que morava na região. Diziam que era filho de uma escrava que foi liberta e ganhou uma terrinha pra viver. Vivendo do que plantava e conseguisse vender, era um homem muito humilde e ligado à natureza. Havia constituído família mas, apesar de ter seus próprios afazeres, nunca se furtava a atender a quem chamasse. Era conhecido por ser rezador.
Uma coisa que impressionava em Neca Tudi era a pureza de coração. Amava os animais e as plantas de um jeito tão especial que era como se compreendesse melhor como a natureza funcionava mesmo. Quando lhe contaram o caso, disse que não precisavam ter matado a cobra, que deviam tê-la devolvido pra mata, que ela só tinha tentado se defender.
Outra característica marcante do homem era o seu desprendimento das coisas materiais, que chamava a atenção mesmo daquela gente do interior. Não guardava nenhum dinheiro. Como gostasse de festa e de dança, quando conseguia juntar algum mandava chamar os vizinhos todos, fazia festa com fogueira grande, contratava sanfoneiro. Era uma alegria só.
Quando viu o menino, Neca Tudi perguntou:
- Nhô Rubem cunhece erva de lagarto?
Seu Rubem fez que sim.
- Pois manda os minino buscá a erva e faz um chá bem forte. Dispois cẽs vão pegá semente de quiabo seco, socá e tirá a baba. O minino vai tomá o chá com a baba e cês vão guardá um pouco pra fazê uns banho. Uma hora cês dão o chá da erva, outra hora o do quiabo. Agora o Sinhô tira as criança, me dá licença que eu preciso rezá o minino.
Neca Tudi benzeu as pernas do garoto que, a esta altura, tinha a visão embaçada e ouvia mal. Ardia em febre, os tornozelos tinham duas vezes o diâmetro das coxas. Sangrava pelos ouvidos. Não deixaram Dona Inácia ver o filho, porque podia afetar o que tinha no ventre, então ela apertava o terço com força. Seu Rubem, que dizia não saber rezar, olhava pra imagem de Nossa Senhora e pedia que abençoasse as mãos do Neca Tudi.
Seguiram à risca as recomendações do caboclo.
O menino sobreviveu à primeira noite. À segunda. Trinta dias e trinta noites tomando chá com baba e fazendo banhos. Valdir não apenas sarou, mas montou um cavalo esperto e deixou que a vida o levasse bem além dos limites do sítio.
Do que Ritinha ensinara, sempre tivera uma simpatia maior pelas contas. Estudou Economia, fez concurso para o Banco do Brasil. Foi trabalhar (quem diria!...) com comércio exterior. A trabalho, foi ao Egito e à Turquia. Casou-se, teve uma filha. Morou no Rio, em Petrópolis, Belo Horizonte, agora mudou-se pra Porto Alegre pra ficar perto dos netos. Está bem contente nas terras gaúchas.
A filha estudou Medicina. Na faculdade, contou o caso da cobra a quem entende do assunto. Disseram que era uma baita história, que criança picada duas vezes assim, com repercussão hemorrágica e tudo, sair bem sem torniquete nem soro não era comum. No fim das contas a Ciência sempre tem explicação. Mas não deixa de ser – a Ciência – uma criação de Nosso Senhor pra poder, Ele mesmo, mexer os pauzinhos.
Agora a guria inventou de ser escritora. Não sabe se vai dar certo, mas já selou o cavalo dela. Disse que gosta de escrever e que isso lhe faz bem. E que, ainda que ninguém leia, só de ela ver esta história, assim, contadinha, dá um calor no coração, é como se pudesse acenar pro Neca Tudi que, neste momento, certeza que está dançando, bem feliz, lá no Céu.
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