Christina Amorozo
08/07/1976. Hoje saímos, como sempre, muito cedo. Ainda estava frio e a neblina cobria os campos cerrados, vestindo a paisagem de calma e segredo. As silhuetas das árvores tortas, espalhadas pelo capim, pareciam fantasmas de atalaia no brancor do ar. Ainda pela manhã, deixamos o cerrado para trás, com sua largueza, seus horizontes generosos, sua luminosidade derretida. Entramos na sombra da floresta. A floresta é uma presença compacta, que respira forte e profundo. A estrada, uma reta mal traçada, corta em dois o pano verde da mata. Em algumas partes, as ‘frentes de colonização’ já empurraram a muralha de árvores bem para o fundo, mas não nesse trecho. Aqui, as árvores chegam bem à beira da estrada, oferecendo sua sombra, seus diferentes matizes de verde, às vezes, uma florada perfumada. A espaços, frutos, alguns comestíveis, que apenas o Turu sabe reconhecer. Quando acontece de ver algum, ele para bruscamente a caminhonete e vai apanhá-lo. Em geral, esses frutos não nos apetecem, forasteiros que somos, desabituados dos paladares locais.
A estrada esbarra: há um rio enorme à nossa frente. Esperamos a balsa chegar do lado de cá para nos atravessar para o lado de lá. Enquanto isso, fazemos as coletas. É impressionante a quantidade de rios e igarapés que topamos pelo caminho. Um dos objetivos da nossa viagem é justamente coletar amostras para análise físico-química da água e dos sedimentos. A balsa chega e embarcamos. A travessia dura uns quinze minutos.
Ao meio-dia, paramos em uma bodega na beira da estrada. Descemos da nossa Toyota velha, cabine simples. Viajamos em cinco: quatro na frente e um sentado atrás, na carroceria coberta com lona. Afe, que vamos apertados. Estamos suados, cansados e empoeirados. Nos sentamos a uma mesa, somos os únicos fregueses. O local é espaçoso, coberto com telhas de barro e aberto de três lados, mais como uma grande varanda do que como um restaurante. Contra a única parede, um balcão e uma porta que dá para a cozinha. A parede é, na verdade, um grande mural, representando uma cena amazônica, com matas, rios, uma arara e um tucano, além de um casal de índios, tudo em cores vivas e num estilo bem característico. É kitsch, mas não deixa de ser bonito.
Javier, o nosso orientador, pede uma cachaça, que toma de um gole só. Ficamos olhando. Turu franze a cara e diz, Também quero uma, Não, você está dirigindo. Nós, alunos, continuamos mudos. Javier então manda vir cerveja para todos. As caras se abrem. O professor é um sujeito legal. O dono da bodega chega para nós e pergunta o que queremos comer. O que tem? Virado de tatu-galinha. Que mais? Só. Então traz pra nós, com arroz, feijão e bastante farinha.
Depois do almoço, temos meia hora para a sesta, como de hábito. Cada um vai se esticar embaixo de uma árvore. Javier, que é metódico e gosta de conforto, vai buscar sua rede e ata os punhos aos galhos de uma grande mangueira.
Eu me deito embaixo de uma gigantesca maçaranduba, mas não prego o olho. Tudo aqui é muito novo para mim. Um ano atrás, eu nunca teria imaginado estar no meio da maior floresta tropical do mundo, percorrendo de cabo a rabo a Cuiabá-Porto Velho, em viagem de pesquisa. Tudo aqui é imenso. Faz já três dias que estamos na estrada, e nem chegamos à metade do caminho. Nosso destino final é Manaus e ainda tem chão até lá. E ‘chão’ é mesmo a palavra certa, já que a estrada é de terra, só carroçável agora, na estação seca. Melhor poeira do que barro, Javier acha. E nós também, apesar de a Toyota dificilmente atolar.
Mas eu ainda estou assimilando a experiência dessa luxuriância, tanta água caudalosa, tanta árvore. Tão diferente da minha terra. É preciso aprender o passo certo para conviver com a floresta: ela te obriga a olhar para dentro e para o detalhe.
As nuvens vão se juntando sem pressa no céu, mas não chegam a encobrir o sol. É a hora mais quente do dia. É também a hora de maior silêncio, como se a pulsação intensa da mata estivesse em suspensão. Ouço o assobio agudo do Javier nos chamando. Já vamos. Entramos no veículo. É a vez do Cacau ir atrás, na carroceria. Silvinha, a única mulher do grupo, irá no próximo rodízio.
A estrada se desenrola à nossa frente. Chegamos a um igarapé, tiramos os equipamentos e começamos a fazer as medidas. Eu faço a parte da água, o Cacau, a dos sedimentos. Silvinha, saca da sua tesoura de poda e começa a tomar amostras das plantas aquáticas e colocá-las em uma prensa de madeira, dentro de folhas de jornal, empilhadas entre folhas de papelão e alumínio corrugado. A pilha está alta, ela sobe nela para tentar fechar a prensa, mas é tão pequena e magrinha, que seu peso não adianta muito. Então, nos chama para ajudar. Terminado o trabalho, voltamos à caminhonete, arrumando as coletas no fundo da carroceria, e cada qual toma seu lugar. O igarapé é raso, e a Toyota não tem dificuldade para atravessá-lo.
Já são cinco e meia da tarde e logo estará escuro. Precisamos encontrar um local para dormir. Resolvemos acampar na beira do rio que teremos que atravessar amanhã de manhã. A balsa já está fora de serviço hoje. Armamos as redes sob as árvores e o Turu, que é também cozinheiro, acende o fogo e cuida de preparar alguma coisa. Está anoitecendo e as cores são magníficas. Pinceladas de verde, rosa, azul-claro e, para o lado do poente, vermelho-sangue, tingem o céu e as nuvens, esgarçadas nessa hora do dia. Podemos ver o reflexo do céu nas águas do rio. Mas logo o sol se esconde completamente e a noite cai. Como é que a vida pode ser ao mesmo tempo tão rústica e tão poética?
Pageviews desde agosto de 2020: 5055
Site desenvolvido pela Plataforma Online de Formação de Escritores