Christina Amorozo
É setembro seco, a chuva ainda não deu o sinal para que chegue o verde novo e a primavera. Caminho pelo campus da USP, sob algumas tipuanas a estender suas sombras meio esburacadas pelo o calçamento. Tipuanas vetustas, barbudas, cansadas. Não se plantam mais dessas árvores, tão comuns na arborização urbana quando eu era criança. Marcavam bem o passar do tempo, primeiro enverdecendo clarinho, depois se salpicando de amarelo e quando chegava o frio, desvestindo as folhas, com os “passarinhos” já preparados para voar. Chamávamos assim seus frutos, que têm o formato de passarinhos achatados, apenas a “cabeça” – a semente – é gordinha , com um cabinho, o “bico”, por onde se penduram aos galhos. Costumávamos brincar com os que apanhávamos do chão, jogando para o alto e vendo eles caírem rodopiando, como pequenos helicópteros.
O barulho das folhas se quebrando sob os pés. O cheiro que se levanta do chão, de matéria orgânica seca misturada com poeira, esse cheiro que só existe embaixo das tipuanas, e que respirávamos brincando na rua de casa. Brincadeiras que se espalhavam pelos paralelepípedos com pouco tráfego, pelas calçadas, algumas ainda de terra, onde os meninos faziam buracos para jogar birosca. Havia para nós na vizinhança um mundo a ser explorado, cheio de aventuras: a mítica escadaria, que pensávamos que tinha mais de duzentos degraus, o que nunca pudemos confirmar, porque sempre nos perdíamos no meio da contagem; a “Lua”, um terreno baldio de arenito claro, todo erodido, na rua debaixo, onde pusemos os pés antes de Neil Armstrong; o parquinho do Seu Adalberto, cheio de brinquedos coloridos, o chão de terra batida varrido por ele próprio todas as manhãs e que, décadas depois, foi notícia na TV.
Que bom ter encontrado essas amigas de infância, resistindo na cidade, tão vetustas, barbudas, cansadas, mas ainda capazes de deflagrar felizes lembranças.
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