Christina Amorozo
Fazia muito calor, o sol brilhava com raiva, disposto a derreter o azul do céu e fritar tudo debaixo dele. O menino estava cansado de andar. Queria uma sombra para descansar e um pouco de água para matar a sede. Não, um pouco não, precisava de muita água para matar aquela sede, um rio inteiro. Mas ali só tinha areia e mais areia, além de um grande buraco e algumas pedras. Não conseguia dar mais nem um passo. Sentou em uma pedra, abraçou os joelhos e começou a chorar.
Por que você está chorando? O menino levantou a cabeça para ver quem falava, mas não havia ninguém. Estou aqui em cima, disse a voz. Ele olhou para cima e viu flutuando no céu uma figura meio desfocada. Estou com muita sede, estou torrando nesse sol, falou. Como é seu nome? Martim, e você, quem é? Sou a Iara, a mãe d’água, ou melhor, eu era a iara, agora sou só um espectro. O que é espectro? Um fantasma. Assim como esse lago aí na sua frente. Mas não tem nenhum lago aqui. Aqui já teve um lago e uma floresta. Não acredito. Só vejo areia e pedra.
Me dê sua mão, disse o fantasma da Iara. O garoto ficou em dúvida. Ele nem conhecia o fantasma. Mas deu. E assim que sua mão tocou a da iara, viu-se em um lugar totalmente diferente. Água! Correu para a beira do lago, se debruçou e bebeu até ficar empanturrado. Deitou de barriga para cima à sombra de uma árvore, feliz.
Que lugar é esse? Perguntou. É aqui mesmo, você não saiu do lugar. Martim não acreditou. É o mesmo lugar, trinta anos atrás. Ele olhou em volta. Em vez de areia e mais areia, viu muitas árvores. Um riozinho despejava suas águas no lago, cantando na língua dos riozinhos.
O que aconteceu? Cortaram a floresta, e a água foi embora. Por que? A água e a floresta são muito amigas. Quando chove, a floresta abraça as gotas, segura bem elas nas suas folhas e raízes; a água gosta desse abraço, e fica morando naquele lugar. Quando não tem mais árvore nem planta pra abraçar as gotas de chuva elas caem e vão embora. E com o tempo, desistem de cair ali e tudo vai ficando cada vez mais seco. Vamos, me dê sua mão, temos que voltar para o tempo em que você vive. Não quero, aqui é muito mais legal. Mas você não pode ficar aqui, esse tempo já passou e ninguém pode viver no passado.
Martim não queria de jeito nenhum voltar para aquele lugar de secura e tanto calor. Correu para a floresta, para se esconder da Iara. Não adiantou, ninguém consegue se esconder de fantasmas. A Iara ficou com pena dele. Você vai encontrar um jeito de melhorar as coisas. E, pegando em sua mão, levou-o de volta a seu tempo e desapareceu. O menino ficou pensando, pensando, até que teve uma ideia.
Dias depois, um urubu que passava por cima do areal seco viu ali uma quantidade enorme de crianças. Curioso, voou mais baixo para saber o que elas faziam. Elas faziam buracos na areia com suas pás e plantavam mudas e sementes de árvores. Pobrezinhas, pensou, assim, nada vai crescer. Acho que vou dar uma mãozinha. E foi conversar com as nuvens.
O escorpião, que era um dos poucos habitantes do areal, também notou a movimentação das crianças. Pobrezinhas, pensou, nessa areia feia, nada vai crescer. Acho que vou dar uma mãozinha. E foi falar com suas amigas minhocas e seus amigos tatuzinhos.
Quando as crianças terminaram de plantar, a chuva caiu e as gotas se abraçaram às mudinhas e sementes. E as minhocas e tatuzinhos fizeram um berço de terra fofa para as pequenas raízes que estavam chegando.
Um dia, um menino estava brincando entre as árvores, quando avistou alguém sobre uma pedra, no meio do lago. Você é a Iara, né? Sou. E você, como se chama? Martim. Uma vez conheci um garoto com esse nome, a Iara falou. Era meu avô; ele me contou a história desse lugar. A Iara sorriu. E para que Martim sempre se lembrasse, pegou sua mão e o levou para conhecer o areal que antes havia ali.
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