Christina Amorozo
não há nada para ver
Nas ruas por onde caminho, até pouco tempo atrás, podia-se ver nesgas de céu sobre os telhados irmanados dos sobradinhos ou dos predinhos de três andares, sem elevador, que durante certa época foram o máximo de modernidade. Não que não haja também edifícios altos, esses mais recentes, salpicados aqui e ali; edifícios com respeitosos recuos das calçadas e das construções vizinhas, algumas vezes com dignos jardins amenizando a aridez do concreto. Havia comércio de rua, lojinhas de variados tipos, para suprir as variadas necessidades do dia a dia, ali, bem ao alcance de alguns passos. Não que o conjunto fosse esteticamente harmonioso, as construções eram testemunhos de épocas diferentes, a satisfazer diferentes gostos, necessidades e bolsos. Mas era interessante explorar as camadas dessa paisagem urbana, escavar a história do bairro na cacofonia dos estilos arquitetônicos, nos detalhes das fachadas, nas conversas dos moradores mais velhos, que ainda costumam usar parte de seu tempo para conviver uns com os outros.
Então, ventos incorporadores deitaram abaixo quarteirões inteiros sem se incomodar com o que antes estava lá. Da noite para o dia, em seu lugar cresceram, ombro a ombro, altos edifícios cerrando fileiras ameaçadoras, cada vez mais densas, parecendo exércitos de governantes totalitários e mal-intencionados, prontos para o ataque. E me pergunto, Aqui é Xangai? Hong Kong? Pyongyang? Com certeza, não é a minha cidade, a cidade onde cresci.
Não tem mais graça caminhar pelo bairro. Não há nada mais para apreciar, a não ser paredes de concreto, subindo sem recuo, quase ao rés da calçada, aprisionando mesmo quem pensa que está andando pelas ruas em liberdade.
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