A barriguinha do rei


Christina Amorozo

Era uma vez um rei muito vaidoso, que se orgulhava de ser esbelto e elegante. Os cortesãos o bajulavam –é para isso que eles servem – Vossa Majestade tem a barriga mais enxuta desse reino e dos outros, e o rei dava um sorriso de orelha a orelha. Não se cansava de admirar sua figura nos espelhos do palácio. O que ele não sabia, era que ali havia apenas espelhos côncavos, que afinam a silhueta.
O rei, que era primo daquele outro que mandara fazer uma roupa nova, um dia decidiu desfilar sua barriga de tanquinho em uma parada, para que os súditos a admirassem. Quando ele passou, em um grande carro alegórico, um menino, que acompanhava a mãe grávida de oito meses, exclamou, Nossa, mãe, que barrigão ele tem, ele tem nenê na barriga também? A mãe ficou vermelha de vergonha e não sabia onde se enfiar. O rei ouviu, e mandou parar o cortejo. Quis levar os dois presos, mas em respeito ao estado da mãe, resolveu perdoar.
Contudo, o que o menino dissera não lhe saía da cabeça. Os cortesãos garantiram que não era verdade, o garoto devia ter algum defeito engordativo na vista. O rei se acalmou. Mas um dia, indo passear sozinho na cidade, passou na frente de um espelho comum. Viu, pelo canto do olho, sua imagem, e se assustou. Mirou-se de frente, sem poder acreditar. Meu Deus, que barriga enorme! Mas como pode ser isso, se eu sempre como tão pouquinho? De fato, entre os inúmeros defeitos do rei, não constava a glutonice. Para manter a forma, mal tocava na comida.
Foi consultar o médico real, que o examinou e disse, Ainda não inventaram a ultrassonografia, então vou precisar abrir vossa augusta barriga para ver o que acontece lá dentro. O rei concordou e a operação foi marcada.
Quando o médico abriu a barriga, ficou assombrado. O rei tinha razão: seu estômago era bem pequenininho. E estava espremido no meio de uma enorme quantidade de coisas. Havia um piano de cauda, um armário de roupas, o manto que o rei perdera, até uma coroa sobressalente e alguns livros. Precisou chamar os homens de uma empresa de mudanças para tirar tudo dali. Costurou a barriga do rei, que ficou bem satisfeito com o trabalho. Além de ter voltado ao tamanho normal, a barriga agora exibia um lindo bordado, muito estético. Mas por que aconteceu isso? O médico não sabia explicar, nem uma junta médica de todo o reino, nem os mais renomados médicos de todos os reinos vizinhos. Deixaram o assunto de lado, afinal o problema havia sido resolvido.
Mas depois de algum tempo, o rei percebeu que sua barriga estava voltando a crescer. Falou com o médico, e esse disse que o único remédio seria abrir de novo, e fazer outra limpeza. Desta vez,, havia menos coisas, mas para retirar o colchão de molas que estava todo embolado lá dentro, tiveram que chamar novamente os homens fortes da mudança. O médico coçou a cabeça. Seria um tipo de doença crônica? Era preciso deixar o rei sob observação. Sua Majestade chamou então quatro lacaios, que deveriam acompanha-lo com atenção dia e noite. Fariam relatórios ao médico sobre as atividades do rei.
Passou-se algum tempo, e o lacaio da madrugada relatou um comportamento estranho. Algumas vezes, o rei se levantava da cama como um sonâmbulo e andava pelo palácio. Quando se aproximava de um objeto, este imediatamente desaparecia. Concluíram que, de alguma forma misteriosa, ele ia parar dentro da barriga do rei. O médico coçou novamente a cabeça. Consultou os sábios e professores e descobriu que existia uma doença muito rara, chamada ‘barriga acumuladora’, para a qual ainda não se conhecia a cura. Só podia ser controlada por operações de limpeza. Quando o rei soube, ficou muito bravo com a incompetência da medicina para resolver o seu caso. Não faço mais nenhuma operação, minha linda barriguinha vai ficar mais remendada que uma colcha de retalhos. E anunciou que premiaria qualquer pessoa que encontrasse uma solução.
O menino, aquele mesmo que havia reparado no barrigão do rei, estava em casa com sua mãe e o novo irmãozinho, quando passaram anunciando a recompensa. Ué, mas o nenê na sua barriga achou uma portinha pra sair; ele comentou com ela, Por que não fazem também uma porta na barriga do rei?
O pai acompanhou o garoto ao palácio para que expusesse sua ideia e saíram de lá com o prêmio no bolso. Os cirurgiões trataram logo de instalar uma linda portinha marchetada em ouro bem acima do umbigo real, e a abriam uma vez por semana para retirar o que era supérfluo. A conselho médico, o rei começou a se alimentar melhor, e percebeu que a fome de objetos foi diminuindo, de forma que a porta precisava ser aberta só uma vez por mês. Abandonou o sonho da barriga de tanquinho e acabou ficando com uma barriga de tamanho normal para um homem de sua idade, nem seca demais, nem barrigão desenfreado.

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Christina Amorozo

E-mail: mcm.amorozo@gmail.com

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