A cidade invivível 1


Christina Amorozo

A cidade invivível

Tarde, noite, manhã. Sempre um ruído de fundo, às vezes mais forte, às vezes mais fraco. Como as ondas de um mar que não existe. Ou existe: mar de gente, mar de carros, mar de concreto.

Tarde, noite, manhã. Céu cinza, nunca preto, nunca azul. Cinza-claro, cinza-escuro. Como o fundo de uma caixa vazia. Ou cheia: de sonhos, frustrações, misérias, pequenas alegrias, como grãos de malacacheta brilhante.


Em manhã cinza-

Abri os olhos. Pelas frestas da veneziana, entrevia-se um cinza difuso. Olhei o relógio: muito cedo ainda para uma manhã de inverno clarear. Era apenas o ar embaçado pelas luzes dos postes lá embaixo. Virei-me para o lado e tentei dormir de novo, mas aquele ruído de fundo incessante, a somatória do resfolegar de um zilhão de vidas e máquinas inquietas, havia se tornado concreta demais para que eu pudesse ignorá-la, como de hábito a gente faz, para não enlouquecer.
O rumor foi aos poucos tomando mais corpo. Resolvi me levantar. Espiei pela janela, no sétimo andar. Vi que a padaria, lá embaixo na avenida, abria suas portas. Examinei o céu. O cinza-escuro ia lentamente dando lugar ao cinza-claro. Uma névoa úmida borrava de leve o cocoruto das árvores, o asfalto, as calçadas. E os transeuntes, já correndo ou se arrastando ao encontro do dia, atrás de um futuro esquivo, onde não falte pão, abrigo, comunhão, ou mais ainda, felicidade – ou o que se imagina que ela seja.
De repente, ouvi os acordes de um violino estilhaçando o ar, arranhando os sentidos mal despertos. A música engrossou, cresceu, tomou os vãos entre os edifícios, os quarteirões próximos, saturou a paisagem que eu via da janela, até que o ruído de fundo da cidade ficou inaudível. Desci para a rua e caminhei em direção à avenida. Lá estava ele, na calçada em frente à padaria. Observei-o, enquanto esperava o sinal abrir para atravessar. Não tinha colocado o estojo do instrumento no chão, como fazem os músicos de rua. Não parecia um músico de rua. Parecia mais um jovem executivo japonês, de terno cinza bem talhado e camisa branca. Me olhou com seus olhos puxados, eu sorri, ele sorriu de volta.
Entrei na padaria. As velhinhas madrugadoras já se enfileiravam para comprar o pão. Os habitués, aqueles que, por solidão, preguiça ou pressa, engolem ali mesmo sua média com pão e manteiga, já se aboletavam no balcão ensebado. Na televisão, em alto e bom som, os crimes da madrugada.
Quando saí, o violinista não estava mais lá. Mas sua música permaneceu comigo durante aquele dia cinzento. Um pequeno grão de malacacheta brilhante.

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Christina Amorozo

E-mail: mcm.amorozo@gmail.com

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